APRESENTAÇÃO

Como ensinar mídia-educação no ensino superior?

O mundo é mesmo redondo: gira, gira, gira e a gente de repente se vê no mesmo lugar.

Aqui estou eu, mais uma vez, planejando modos de ensinar aos meus alunos aquilo que aprendi ser importante sobre mídia. E esta não será uma tarefa trivial.

O conhecimento e as práticas que emergem da interface entre os campos da comunicação e da educação são objeto de estudos no Brasil desde pelo menos os 60, talvez até antes. Trata-se de uma área ampla e complexa como um mini universo, complexidade essa agravada por um fenômeno contemporâneo bem específico: o abismo que existe entre o modo como as novas gerações (integradas à vida com mídias) aprendem e o modo como as gerações de professores ensinam.  Esse assunto já foi abordado com rigor e bons senso por muitos pesquisadores, entre eles Douglas Kellner, Jesus Martin Barbero e os membros do New London Group. É a partir dos argumentos deles que eu também me posiciono.

Esquematicamente, o problema está posto da seguinte forma: as escolas ainda se organizam sob uma lógica fordista, com currículo seriado, organizado por disciplinas. As salas de aula são organizadas de modo que os alunos fiquem enfileirados, prestando atenção num quadro branco (ou numa tela de projeção, tanto faz) onde o professor vai apresentando aquilo que tem de ser aprendido. A avaliação tem de ser individual e testar a capacidade que o aluno teve de reter aquilo que foi ensinado. Tudo aparentemente muito previsível, estável e natural.

É verdade que esse modelo sofre críticas de todos os lados mas, todas as noites, quando circulo pelos corredores da UFTM, é isso que eu vejo. E essa cena se repete numa infinidade de universidades Brasil afora.

Fora dali, as pessoas se reunem em grupos físicos ou virtuais, descobrem os interesses comuns, as dissidências, as habilidades, os pontos fortes e fracos de cada um. Às vezes elas entram em disputa, às vezes colaboram para resolver um problema comum, do momento. Muitas vezes, resolvido esse problema, elas se dispersam e podem vir a se encontrar de novo no futuro, ou nunca mais. Às vezes, criam vínculos duradouros porque viram que a colaboração dá certo.De qualquer modo, as coisas funcionam mais na base das perguntas do que das certezas. E é bem mais difícil ser professor nesse contexto.

Ainda assim, pessoalmente, acredito no modelo aberto mais do que no fordista. Creio que sei muito bem como organizar um curso nesse modelo e me sinto motivada a aprender com a experiência. Entretanto, todos os dias, sou esmagada pela estrutura que a universidade me reservou: turmas numerosas com aulas de dois créditos e falta de recursos tecnológicos mínimos.

Parece que há um consenso velado na educação brasileira (e pode ser que seja assim em muitos outros lugares também, as eu posso falar da minha aldeia) de que a educação universitária precisa ser difícil e pesada. Que só com sacrifício a gente consegue resultados. Pode ser, mas também pode ser que haja vida, aprendizagem e resultados semelhantes em ambientes onde pairam a leveza e alegria.

O filósofo da ciência Thomas Kuhn disse que cientistas são pessoas que gostam de montar quebra-cabeças. A mim parece a metáfora perfeita: quebra-cabeça pode ser algo difícil, que exige disciplina, método e concentração. Mas como diverte!

Com a volta às aulas, meu quebra-cabeça está de volta: preciso juntar as peças de uma remanescente educação enfileirada com os últimos acontecimentos numa área do conhecimento que nem existe formalmente mas que, do fundo do meu coração, acredito que está no cerne das mudanças tão necessárias ao modo como se ensina e se aprende nas escolas – da educação infantil à universidade.

Afe!

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Sobre ABujokas

Sou graduada em jornalismo, doutora em educação, professora da Universidade Federal do Triângulo Mineiro e pesquisadora no campo da media literacy/mídia-educação. Embora viva na terra do boi Zebu, não tomo leite e não como carne, porque fazem mal para mim e para o meio ambiente.
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