AULA 3

O papel da mídia e o papel da educação

O objetivo da terceira semana de aula foi concluir o primeiro item do programa de estudos da disciplina, que chamamos de “Tecnologias digitais e cultura contemporânea”, com dois sub itens: “Influência da mídia e construção de identidades” e “O papel do educador num mundo midiatizado”.

Em outros semestres, eu não fiz essa introdução ao assunto e senti que os alunos ficaram um pouco perdidos, o que é comum quando se estuda algo que nunca se ouviu falar antes. Neste semestre, porém, optamos por fazer uma exposição introduória e mostrar como a mídia-educação é algo um pouco fragmentado no Brasil mas que, internacionalmente, há um movimento grande, forte e articulado, envolvendo inclusive instituições de peso como a UNESCO.

A aula for organizada a partir de uma pergunta básica: “Por que é preciso ter mídia-educação”? Essa pergunta se desmembrou em três outras: “Quem é o público da mídia?”; ” Qual é o problema da cultura midiática?” e “O que a educação tem com isso?”

Inicialmente, recuperei as respostas  da questão 1 que os alunos haviam postado no blog, e que fez parte das atividades da segunda semana, numa aula não-presencial. Essas respostas foram o ponto de partida para introduzir a seguinte questão: a maioria de nós acha que é usuário crítico da mídia e que quem é manipulável é “a massa”. Ora, a massa somos nós. Como resolvemos esse embróglio

Uma possibilidade é ver como as teorias da comunicação vêem a audiência. Ao longo do tempo, essa visão tem variado entre público passivo e acrítico num extremo; ativo e crítico no outro. No meio desse espectro, há uma diversidade de propostas de interpretação doc omportamento do público como, por exemplo, aquela proposta pelos Estudos Culturais, que vêem o público como sujeitos que negociam o significado do texto. Segundo o pesquisador britânico Stuart Hall, a decodificação de um texto midiático pode se dar de três maneiras:

LEITURA HEGEMÔNICA DOMINANTE – que ocorre quando o público lê o código referencial e o interpreta de maneira muito próxima à ideia do autor quando codificou a mensagem;

LEITURA DE NEGOCIAÇÃO – nessas situações, o público compreende e se apropria das codificações dominates, mas se opõe a alguns aspectos, seja fazendo críticas, seja complementando o texto com informações do seu repertório pessoal;

LEITURA DE OPOSIÇÃO – ocorre quando o público codifica o signo referencial, compreende as conotações, mas rejeita a perspectiva proposta.

Uma coisa é o público fazer isso, outra é ter consciência de que reage desse modo à mídia. Adquirir consciência sobre a própria experiência com os meios de comunicação é, precisamente, um dos objetivos da mídia-educação.

A segunda pergunta “Qual é o problema da cultura midiática” foi tratada da seguinte forma: todas as pessoas integradas de uma forma ou de outra à cultura digital tem o potencial de ser leitura e produtora de conteúdo, o que é algo muito positivo se estamos preocupados em exercer nosso direito à liberdade de expressão.

Ocorre que um produtor amador, via de regra, não conhece os mecanismos que regem a produção profissional de conteúdo levada a cabo pelas grandes corporações de mídia. Quando não temos essa consciência, acabamos reproduzindo – inclusive na nossa própria produção – as posições hegemônicas propagadas pelos meios de comunicação: do jornalismo ao cinema, passando pela publicidade. Se queremos exercer nosso direito de receber e enviar informações livres de barreiras de qualquer ordem, então é preciso que saibamos como é que a mídia funciona e qual é seu papel nas sociedades democráticas.

Nesse ponto, toquei em questões como concessão pública de rádio e TV, concentração dos meios, pluralidade e diversidade, proteção de audiências vulneráveis  e mídias comunitárias. Foram conceitos que renderam bons debates como, por exemplo, como equilibrar o interesse do empresário que quer anunciar seus produtos na programação infantil (afinal, é assim que a economia se move e gera emprego) e o interesse de pais e psicólogos preocupados com o incentivo ao consumismo sem controle.

Tentei argumentar que essa é uma questão para a qual não há uma resposta exata, mas que, por serem concessões públicas, os canais de TV das sociedades democráticas devem acatar decisões da maioria. Foi o que aconteceu na Inglaterra, quando o Ofcom consultou a sociedade e baniu a propaganda de junk food na programação infantil. No Brasil, na falta de um órgão regulador que crie canais institucionais para o público opinar sobre a radiodifusão, esse é um assunto que não faz parte da agenda pública. E os meios de comunicação é que não vão promover o debate. Como, então, fazer para exercermos o direito de opinar no nosso país?

Nesse ponto, tentei responder a terceira questão: a escola tem responsabilidade nessa história. Outra tarefa importante para a mídia-educação é ensinar as pessoas a compreender o papel e as funções dos meios de comunicação nas sociedades democráticas; papel esse que vai do entretenimento de caráter comercial ao serviço público de informação e educação. Um país decente deveria ter equilíbrio entre as corporações de mídia comerciais, as emissoras públicas e educativase as mídias comunitárias. Esse é o jeito pragmático de se ter diversidade e pluralidade, fatores essenciais para melhorar a qualidade da informação e garantir o direito à liberdade de expressão.

A seguir, apresentei as definições de “Media Literacy” e de “Information Literacy” segundo documentos da UNESCO e fomos conversando sobre cada uma dessas habilidades:

Para concluir a discussão, mostrei algumas iniciativas internacionais, em especial a proposta da UNESCO e uma linha do tempo de alguns eventos relacionados à mídia-educação no Brasil.

Veja a linha do tempo aqui.

Encerrei a aula com um trecho do livro “The Popular Arts”, escrito por Stuar Hall e Pady Whannel, publicado na Inglaterra em 1964. É curioso ver como, há quase 50 anos, os educadores já diziam que a mídia deveria estar no centro das atividades escolares:

“É a história de uma antiga tribo, cujos membros levavam uma vida estável e reconfortante. As crianças partilhavam das tradições de seus pais e eram ensinadas a pescar em águas correntes límpidas e a caçar o tigre de dente-de-sabre. Aí veio o gelo, a água se tornou turva e o tigre se mudou para o sul. Mas a tribo preservou seus modos tradicionais. Eles limparam uma parte do rio para que as crianças continuassem a pescar, e empalharam um tigre, para que elas aprendessem a caçar. Então, um crítico jovem membro da tribo veio até o conselho e perguntou porque, ao invés disso, as crianças não eram ensinadas a pescar em águas turvas e a caçar o urso polar, que recentemente havia começado a assolar as tribos. O conselho ficou furioso. Nós sempre ensinamos a pescar em águas límpidas e a caçar o tigre, porque essas são as disciplinas clássicas. Além disso, o currículo já está sobrecarregado.”

De nossa parte, vamos nos empenhar em agir para mudar o currículo. Na semana que vem começamos a estudar a mídia e nosso ponto de partida vai ser a linguagem e a cultura das narrativas gráficas.

Para o alto, e avante!

Imagem do Super Homem

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Sobre ABujokas

Sou graduada em jornalismo, doutora em educação, professora da Universidade Federal do Triângulo Mineiro e pesquisadora no campo da media literacy/mídia-educação. Embora viva na terra do boi Zebu, não tomo leite e não como carne, porque fazem mal para mim e para o meio ambiente.
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