AULA 6

Que venham as estruturas narrativas


Em seus primórdios, o cinema desenvolveu o processo narrativo.

Na aula 5, revisamos os conceitos de signo, significante e significado, depois analisamos a leitura que os alunos fizeram do anúncio “Todos os animais têm as mesmas partes”, do PETA e discutimos as tendências de leitura.

Não foi difícil para eles compreender como as suas próprias mentes funcinaram na hora de interpretar o anúncio e perceber que haviam prestado mais atenção na imagem como ícone (isto é a Pâmela Anderson parecendo uma vaca) do que como símbolo (a associação da atitude vegetariana com a sensualidade estereotipada da mulher, já que o texto falava de vegetarianismo, mas a imagem mostrava o cenário e uma pose de pinaup que não têm relação com a causa). Eu me enganei. Achei que haveria discordância, como já ouve outras vezes, mas parece que essas turmas de 2011 estão mais centradas…

Tratar da relação entre ícones e símbolos é um terreno fértil para trazer à tona o modo como as ideias são construídas e abre caminho para outro conceito importante da análise de textos midiáticos: as estruturas narrativas.

Em outras palavras, qualquer que seja o texto – uma reportagem, um filme, um anúncio, uma fotografia – há sempre uma história por trás daquela mensagem. A história é decorrente dos fatos implíticos e explícitos. Implícitas são as coisas que sabemos a priori sobre a marca anunciada, sobre a celebridade que empresta sua imagem à marca, sobre a posição social da pessoa retratada na reportagem ou na fotografia, por exemplo. Ao ler uma mensagem, levamos esses conhecimento para dentro dela e a preenchemos de sentido.

O que nos instiga a trazer os fatos implíticos para dentro da mensagem são os elementos explícitos da linguagem que estão presentes no texto: cenários, gestos, objetos, textos, melodias. Esses elementos ajudam a criar o que chamamos de “plot” ou plano da narrativa. Mas a coisa não termina aqui. Além da história e do plot também temos que lidar com aquilo que os estudiosos da narrativa chamam de “material diegético”, ou seja, a realidade própria da narrativa.

O quebra-cabeça funciona mais ou menos assim: eu entro em contato com uma mensagem, decodifico os elementos da narrativa (presentes no plot) ao mesmo tempo em que associo esses elementos com o repertório que eu já tenho sobre aquilo que está sendo representado na mensagem. Nesse processo de decodificação, eu sou solidária com o autor do texto, porque me esforço para aceitar a lógica própria do mundo ficcional que existe dentro da história e à parte da realidade externa de quem lê (o chamado “mundo real“). Por exemplo: quando o cinema faz cortes impossíveis no tempo – vai para o futuro e volta para o passado em 15 segundos, eu não estranho esses cortes. Ao contrário, eu os considero “normais” dentro do sintagma do filme. Com o espaço, é a mesma coisa: uma hora aqui, outra ali; num momento dentro da mente do personagem, noutro observando o personagem de fora. É desse jogo que vem a graça das histórias.

Precisamente, nessa curtição é que mora o perigo: quando a gente se envolve emocionalmente com um texto, há uma grande chance de, momentaneamente, desligarmos a chave da crítica e, no final das contas, acabamos introjetando valores e representações sem nos darmos conta. Eles se tornam material implícito dentro de nós mesmos, passamos a usar esse material na decodificação de outras mensagens e vamos atribuindo (e, assim, reproduzindo) valores e representações quem nem sempre são coerentes com a nossa realidade.

Estruturas narrativas, material implícito, material explítico, história, plot, diegese, valores e representações são assuntos para a próxima aula. Vamos começar pela ideia mais simples: começo-meio-fim, para compreender a ideia básica de estrutura de uma história.

Depois, vamos acrescentar elementos para identificar o processo narrativo: exposição – disrupção -complicação – clímax – resolução – encerramento. Compreender esse processo nos ajuda a identificar os valores e representações que vêm no pacote da mensagem.

Por fim, vamos explorar os conceitos de paradigma e sintagma (ou eixos vertical e horizontal da linguagem, segundo Roland Barthes) para tentar enxergar aquilo que o teórico do cinema Christian Metz chama de competição no sintagma. Segundo essa perspectiva, aquilo que entra na narrativa compete com aquilo que não entra. E é dessa competição que surgem as representações.

Modelo de estrutura narrativa

Na linha do tempo de uma narrativa, devemos identificar as fases do processo e o que elas representam.

Assim, por exemplo, sabemos que, em narrativas tradicionais, a mocinha deve enfrentar muitas dificuldades, mas precisa se manter firme, já que essa é sua função no plot. Se a mocinha fraqueja e trapaceia, por exemplo, ela tem duas possibilidades: ser punida por ter fraquejado (já que ela era a heroína e não tinha esse direito de acordo com a linha narrativa tradicional) ou se dar bem, apesar de ter desafiado sua condição na diegese da história.

O que se espera da mocinha ao longo da narrativa é o chamado sintagma; o que ela faz (manter as expectativas ou desafiá-las) são os pradigmas possíveis. Dependendo do que acontecer, temos uma representação para o bem: se a mocinha é punida, o filme nos ensina que só há saída quando permanecemos bons. Se a mocinha trapacear e se der bem também, temos a representação do bem como algo para idealistas e, eventualmente, otários. Enfim, a dinâmica de encaixes de paradigmas num sintagma é que constrói a representação.

O próximo desafio é aplicar toda essa teoria na prática da leitura de mensagens midiáticas.

Na aula 6 vamos:

1. Assistir três filmes dos pioneiros do cinema: “Sorti d’usine” e “Le jardinier et le petit espiègle” dos irmãos Lumière; “Mary Jane’s Mishap” de George Smith. Esses filmes evoluem do simples “começo-meio-fim” para o processo narrativo mais complexo, com normalidade inicial quebrada por uma disrupção que evolui para a complicação, o clímax e, de algum modo, resolvida, e volta a uma nova situação de normalidade.

2. Assistir o videoclipe “The day that never comes” da banda Metallica, identificar o processo narrativo e as representações decorrentes dos encaixes dos paradigmas para cada um dos momentos do processo narrativo no sintagma do plot. Nesse momento, discutiremos os fatos implícitos e explícitos, o material diegético, a informação fornecida e a informação negada e as representações que o heavy metal faz da guerra ao terror.

Para encerrar a aula, vamos ouvir um programa de rádio que narra a tragédia grega Medéia, de Eurípedes, escrita em 431 a.C. A tarefa dos alunos será ouvir e reconstruir mentalmente todo o processo narrativo, avaliando valores e representações decorrentes.

Vai ser rock’m’roll.

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Sobre ABujokas

Sou graduada em jornalismo, doutora em educação, professora da Universidade Federal do Triângulo Mineiro e pesquisadora no campo da media literacy/mídia-educação. Embora viva na terra do boi Zebu, não tomo leite e não como carne, porque fazem mal para mim e para o meio ambiente.
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