Aula 9

Tecendo a Rede de Intrigas

Após a prova e antes de iniciar o estudo das duas últimas linguagens planejadas para o programa da disciplina, fizemo suma sessão de cineclube. O filme escolhido foi “Rede de Intrigas”, do diretor Sidney Lumet, lançado em 1976. Fizemos uma sessão usando a sala de cinema que a Universidade Federal do Triângulo Mineiro mantém no centro da cidade, num sábado à tarde.

Ao chegar, os alunos recebiam esta crítica que eu mesma fiz:

A culpa da audiência, da TV ao Twitter

Cena do filme Rede de Intrigas, dirigido por Sidney Lumet e lançado em 1976

Eu já assisti Rede de Intrigas diversas vezes e, em todas elas, fiquei impressionada com a atualidade e a inteligência dos diálogos, que cabem perfeitamente em discussões sobre a mídia que conhecemos e usamos hoje. E essa não é uma questão trivial, já que o filme foi feito em 1976, época em que não se podia sequer imaginar coisas como Google e Facebook. Rede de Intrigas, acima de tudo, nos ensina a enxergar nós mesmos como aquela audiência inocentemente cruel.
A história gira em torno da saga de Howard Beale, um apresentador de notícias que está prestes a ser demitido por que seu programa não tem mais audiência. Ele então anuncia sua demissão ao vivo e diz que vai se matar durante o programa da próxima semana. Obviamente, uma notícia como essa reverte toda a situação, a audiência volta e ele se torna uma estrela da emissora. Mas aí é que as coisas se complicam…
Enquanto os diretores se debatem tentando dar um encaminhamento ao imbróglio que o apresentador criou, entra em cena a jovem executiva Diana Christensen, que vê em Beale um potencial profeta dos tempos modernos. Tudo o que ela precisa fazer é lapidá-lo para atender às expectativas do público. Ocorre que, como toda celebridade, Beale é vaidoso, e vai trabalhar para criar sua própria lenda. Neste momento, está criado o jogo de forças entre os executivos, a celebridade e o público. Quem tem mais poder nessa história?
Para desenvolver tal ponto de vista, a narrativa apresenta diálogos dignos de nota. Numa dada cena, por exemplo, Max Schumacher, um dos executivos da TV, anuncia que vai se separar da sua esposa porque está apaixonado por Diana Christensen mas, no fundo, confessa que não está lá muito crente no romance, já que “tudo o que ela sabe, aprendeu com o Perna Longa”.
Outra cena paradigmática é aquela em que Beale inicia seu programa (agora sucesso de audiência) denunciando as disputas internas de poder na TV, depois que um de seus executivos faleceu.
Por que isso seria um problema para o público desinteressado, ele se pergunta? Porque é esse público cruel que mantém a televisão do jeito como ela é, ainda que não tenha a menor consciência do que acontece do lado de dentro da mídia. Não tendo consciência, a audiência age como se a TV fosse uma fonte de verdades e, agindo assim, colabora para sustentar uma rede de intrigas. Está feito o círculo vicioso que promove polêmicas midiáticas há mais de 50 anos.
Preste atenção na cena em que Beale critica sua própria audiência. Se você faz parte dos 97% que não lêem livros, dos 75%  que não lêem jornais e da multidão viciada em Facebook e Twitter, você também é responsável pela morte do profeta.

Após a exibição, fizemos uma discussão, em que foram levantados diversos aspectos relacionados à rotina de produção nas grandes redes de TV, conflitos éticos e o poder o capital sobre a veiculação da informação. Uma aluna fez uma relação particularmente interessante: no filme, o apresentador Howard Beale convoca a população para mandar telegramas para a Casa Branca, reclamando da política. De um dia para o outro, mais de 6 mil telegramas são enviados e o filme sugere que as pessoas se sentem participando a política ao fazer isso. De modo semelhante, naquela semana, havia sido lançada uma campanha no Facebook, pedindo aos usuários que trocassem sua foto pela de um personagem de desenho animado, em sinal de protesto contra a pedofilia na rede. Mais de 30 anos depois, a mídia continua mobilizando manifestações cosméticas…

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Sobre ABujokas

Sou graduada em jornalismo, doutora em educação, professora da Universidade Federal do Triângulo Mineiro e pesquisadora no campo da media literacy/mídia-educação. Embora viva na terra do boi Zebu, não tomo leite e não como carne, porque fazem mal para mim e para o meio ambiente.
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