Mídia-educação no museu

O Museu da História do Povo, em Manchester, organizou a exposição “Picturing Politics – Exploring the political poster in Britain“, que reúne mais de 60 posteres de campanhas políticas desde o início do século 20.

“Apesar do rádio e da televisão e da internet, o poster sobrevive como um resquício da política vitoriana. Enquanto os eventos políticos em si já se dissparam da nossa memória coletiva, os poster permanecem como a última herança visual e esta exposição explora tal legado”, anuncia o painel de abertura. ”

Segundo os organizadores, os posteres nos ensinam quatro coisas fundamentais:

1. Aquilo que parece politicamente novo, na verdade não é;

2. Símbolos e ícones são elementos vitais para a nossa compreensão da política;

3. Apesar dos partidos gastarem milhões com a produção de posteres, eles não sabem ao certo se esse recurso funciona;

4. Posteres são lugares onde arte e política se encontram.

A “museologia” usada me pareceu exemplar. Longe de pendurar um monte de quadros na parede e deixar o visitante que se vire para compreender a informação disponível ali, o que os curadores fizeram foi dissecar a linguagem comum. E mostrar como, apesar das inovações técnicas e estéticas, o argumento parece ser sempre o mesmo: se você votar na oposição, a Inglaterra vai voltar a ter filas de gente procurando emprego.

Logo na entrada, um painel descreve os estilos mais típicos e desmonta a sua estrutura, comparando exemplos do início do século, até o poster icônico da última campanha, que elegeu o primeiro ministro David Cameron, do partido Conservador.

Na sequência, um painel interativo explica o papel dos elementos da linguagem visual: ícones facilmente reconhecíveis para lugares, épocas, classes sociais; e símbolos historicamente associados a valores importantes para a política, tais como honestidade, esperança e coragem. O mais curioso foi saber que, na cultura britânica, o cachimbo é um símbolo de confiabilidade!

Na história das campanhas políticas inglesas, o cachimbo primeiro foi um ícone associado ao primeiro ministro Harold Wilson, e depois ganhou vida própria, significando confiabilidade. O charuto de Churchil não teve a mesma sorte: é facilmente reconhecido como um símbolo dos ricos e pedantes

Depois de conhecer um pouco a linguagem do poster, o visitante pode explorar o acervo, organizado em quatro conjuntos: campanhas após a I Guerra, a campanha “Labour for security”,”Lets go with Labour” e “People Power”.

A campanha “Labour for Security” foi lançada nas eleições gerais de 1945, com nove  posteres que explicitamente associavam o Partido Trabalhista com o sacrifício das forças armadas, argumentando que somente os trabalhadores poderiam garantir aos soldados o futuro que eles mereciam.

Nos anos 60, o slogan “Let’s go with Labour” usava uma expressão jovem, para afastar a ideia de que se tratava de um partido com ideias retrógradas, como mostraram as eleições anteriores. O design se inspirava em modernos layouts de propaganda, com letras garrafais e ângulos. Curioso foi ver o ícone da mão com sinal de positivo que hoje sai do Facebook para os sites de partidos e candidatos. Realmente, como disseram os curadores, aquilo que parece novo, não é…

Design moderno para uma frase da hora: a estratégia para fazer o Labour deixar de parecer um partido velho

A seção “People Power” reúne principalmente material da última campanha. Em 2010, David Cameron lançou o manifesto da “Big Society”, convidandoo povo a assumir o controle de suas próprias vidas para se tornarem parte da grande sociedade. Os pais teriam o poder de tocar as escolas dos filhos, os moradores poderiam opinar e até vetar decisões do conselhos locais, as comunidades poderiam tomar conta de seus postos de correio locais, numa explícita crítica ao modo trabalhista de conduzir o Estado. As pesquisas logo mostraram que os pais não estavam muito a fim de assumir a responsabilidade pela escola dos seus filhos, mas, ainda assim, a ideia da “Big Society” como uma “Grande Ideia” prevaleceu na campanha.

"Existe uma coisa chamada sociedade, que não é exatamente a mesma coisa que o Estado", argumenta o poster da campanha "Big Society"

Como não poderia deixar de ser, o bate-boca entre oponentes também está presente nas campanhas eleitorais dos polidos britânicos. Uma seção especial mostra como um partido afilneta o outro e a prática “sórdida” dos conservadores é contrastada com a elegância dos “novos trabalhistas” liderados por Tony Blair (lembre-se de que este é o Museu da História do Povo).

Num dos mais famosos posteres da última campanha, os conservadores fizeram uma montagem com os olhos de Blair e o associaram com uma frase supostamente dita por Clare Short, uma dissidente do Partido Trabalhista: “Eu às vezes os chamo de pessoas que vivem no lado escuro”. Sobre o “Novo Trabalhismo”, ela disse que “É uma mentira. E é perigoso.” A fim de enfatizar o caráter fantasioso do poster, o museu o coloca lado a lado com a campanha do Novo Trabalhismo. Nela, Tony Blair aparece descontraído, de mangas arregaçadas.

O mesmo Tony Blair, nas perspectivas dos Conservadores e dos Trabalhistas

Obviamente, não há como saber que tipo de influência uma estratégia como essa tem sobre a decisão de voto das pessoas. O fato é que os publicitários continuam tentando. O lado bom dessa história é que, passadas as eleições, os posteres se transformam em registros da cultura midiática que nos ajudam a entender como essa esfera pública levemente esquizofrênica funciona. Aí sim, funciona.

Veja aqui uma pequena coleção de posteres políticos da Revista de História da BBC.

Veja aqui o acervo de material de campanha do Partido Trabalhista inglês.

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Sobre ABujokas

Sou graduada em jornalismo, doutora em educação, professora da Universidade Federal do Triângulo Mineiro e pesquisadora no campo da media literacy/mídia-educação. Embora viva na terra do boi Zebu, não tomo leite e não como carne, porque fazem mal para mim e para o meio ambiente.
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