Vai começar mais um semestre de mídia-educação

Em 26 de novembro, começamos as aulas referentes ao segundo semestre de 2012. E lá vem mais uma turma da disciplina “Comunicação, Educação e Tecnologia”. Essa data estranha é consequência da nossa greve de quatro meses. O semestre acaba só em maio do ano que vem. A situação atípica – todos vamos estar mais cansados do que o habitual, vai ter Natal e Ano Novo no meio do semestre – me inspirou para tentar testar algumas coisas atípicas também, embora eu me mantenha fiel aos fundamentos que sustentam as práticas de mídia-educação em diversos países.

O início das aulas coincidiu com a realização do “II Seminário Internacional Repúblicas e Violência: um olhar das mulheres” que a Secretaria Estadual da Mulher do Estado de Pernambuco vai realizar entre 27 e 29 de novembro, e eu fui convidada para moderar uma mesa que vai discutir expressões da violência patriarcal e republicana nos campos do conhecimento, da religião, do poder, da mídia e da família.

Para que os alunos não fiquem com aquela sensação de abandonados no primeiro dia de aula, resolvi preparar uma atividade introdutória ao assunto da disciplina, que tem dois objetivos: oferecer um pouco de informação sobre um assunto do qual eles provavelmente nunca ouviram falar; reunir dados do repertório deles sobre uso crítico da mídia. A partir desses dados, vou tocar o primeiro tópico do plano de ensino, que eu chamei de “Tecnologias digitais e cultura contemporânea”, composto por dois subtemas: “Influência da mídia e construção de identidades” e “O papel do educador num mundo midiatizado”.

Eu costumava começar este tópico com a discussão de um caso controverso recente da cultura midiática. Já usei o kit gay do MEC, publicidade do PETA com a Pâmela Anderson, e, no semestre passado, usei a propaganda da Hope com a Gisele Bündchen, que foi criticada pela Secretaria de Políticas para Mulheres do governo federal. Uso esses exemplos para iniciar a discussão sobre a influência da mídia e o papel da educação nesse cenário.  No caso da Hope, estudamos os argumentos da SPM, os contra-argumentos do Conar e a defesa da gerência de marketing da Hope. A atividade serviu para mostrar como audiências diferentes respondem de maneira diferente ao mesmo texto midiático e que, se podemos falar em leitura crítica da mídia, ela se refere à capacidade de “desmontar o texto”, identificar o modo como a linguagem opera para gerar representações e, a partir daí, emitir uma opinião informada sobre a controvérsia. Esse é o papel da mídia-educação: empoderar as pessoas para serem usuárias autônomas da mídia, o que implica em dominar sistemas, conhecer linguagens, saber ler e escrever nessas linguagens (que fazem da imagem uma de suas matérias primas principais), saber identificar representações em disputa e o modo como as pessoas respondem a essas representações: se aderem ao discurso, se negociam com ele ou se simplesmente o rejeitam e porque agem desta ou daquela forma.

De um modo geral, as atividades de mídia-educação colocam em prática as habilidades básicas para o Ensino Médio definidas nos Parâmetros Curriculares Nacionais: Representar e Comunicar; Analisar e Sintetizar; Contextualizar Historica e Culturalmente. Se eu tiver que dar mais um motivo para justificar a empreitada que, mais uma vez, estou começando, diria que a mídia-educação tem se mostrado um ferramenta muito produtiva para ensinar aos jovens maneiras de exercer seu direito à liberdade de expressão, tal qual descrita no artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos: direito de receber e emitir informações, livres de barreiras. Ninguém nasceu sabendo como fazer isso. Vamos ensiná-los então!

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Sobre ABujokas

Sou graduada em jornalismo, doutora em educação, professora da Universidade Federal do Triângulo Mineiro e pesquisadora no campo da media literacy/mídia-educação. Embora viva na terra do boi Zebu, não tomo leite e não como carne, porque fazem mal para mim e para o meio ambiente.
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2 respostas a Vai começar mais um semestre de mídia-educação

  1. ABujokas diz:

    Infelizmente, é uma disciplina presencial da graduação …

  2. Muito legal.
    Essa matéria é online?
    Adoraria participar.
    Obrigado
    Cesar

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