Leitura e produção de imagens na formação de professores

Em 4 e 5 de dezembro, ministro a oficina “Estudando a imagem – leitura crítica e produção” no IV Encontro Nacional das Licenciaturas e III Encontro Nacional do PIBID, realizado pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro.

Serão dois encontros de 2h cada e o meu objetivo é ensinar os alunos a desmontar mentalmente a linguagem da fotografia, a fim de tecer hipóteses sobre as intenções dos autores de imagens publicadas na mídia e que ganham nossa atenção.

Organizei a proposta em quatro módulos. Vamos começar discutindo o argumento de uma campanha publicitária do jornal sul-africano “Cape Times”, que ganhou destaque no Facebook, ao transformar fotos jornalísticas famosas em “selfies” (os auto-retratos que as pessoas publicam usando câmeras digitais). O slogan da campanha é “Você não pode ficar mais perto da notícia”. Meu ponto aqui é: a veracidade de uma foto depende de quem a tira? Isto é, porque foi o público e não o profissional de mídia que fez, a imagem é mais autêntica? Onde está o problema da fotografia como fonte de informação?

Slogan diz "Você não pode ficar mais perto da notícia"

Slogan diz “Você não pode ficar mais perto da notícia”

 

Para responder essas perguntas, vamos começar examinando alguns elementos da linguagem da fotografia, tais como os planos, uso do foco, composição, iluminação etc. A ideia é ajudar os participantes a criar um repertório visual útil para analisar o modo como elementos da linguagem fotográfica são articulados pelo fotógrafo, resultando em representações muito específicas.

O primeiro dia da oficina vai terminar com um exercício prático. Os participantes vão receber um material impresso com janelas em branco, que deverão ser preenchidas com fotos produzidas por eles próprios para ilustrar, por exemplo, planos abertos e fechados sobre um mesmo tema, exercícios com composição etc.

A oficina do segundo dia será dedicada ao estudo dos processos de conotação e denotação na fotografia, segundo o semiólogo francês Roland Barthes. Escolhi essa abordagem teórica porque, ao menos conforme a minha experiência, aprender a separar (ainda que momentaneamente e de modo artificial) a denotação da conotação é um dos recursos didáticos mais eficientes para aprender a olhar uma imagem “por dentro”.

Barthes nos ensina a analisar fotos em três etapas:

1. Identificar o que ele chama de “mensagem icônica não-codificada”, ou mensagem denotada, que se resume à cena literal, aquilo que vemos tão objetivamente possível. Nessa etapa, precisamos conhecer alguns aspectos técnicos como planos, enquadramento, uso da luz etc,para fazer uma descrição tão detalhada e precisa quanto possível;

2. Identificar a chamada “mensagem icônica codificada”, ou conotada, que é a cena cultural que emerge da fotografia. É esta a mensagem que nos faz arrastar para dentro da imagem elementos do nosso repertório cultural. Na prática, interpretamos poses congeladas, objetos valorizados, cores, justaposições etc como bonito, leal, vergonhoso etc;

3. Interpretar a mensagem linguística que acompanha a foto e serve de âncora para o sentido. Como a imagem tem natureza polissêmica, editores de mídia colocam títulos e legendas nas fotos, para realçar sentidos específicos. Confrontar os sentidos possíveis para a imagem com o sentido enfatizado pelo editor nos ajuda a identificar as intenções de quem emitiu a mensagem.

Este é um exemplo prático que vamos estudar:

De todas as fotos feitas no local,  o editor escolhe esta para noticiar uma cerimônia de inauguração de mais  UPP. Por que essa imagem?

De todas as fotos feitas no local, o editor escolhe esta para noticiar uma cerimônia de inauguração de mais UPP. Por que essa imagem?

Mensagem icônica não-codificada = cena literal = mensagem denotada

Trata-se de um plano médio de dois soldados do Bope. Eles seguram armas de guerra em posição de descanso e conversam entre si. Ao fundo vê-se uma imagem estilizada do palhaço Bozo, com os olhos vidrados, segurando uma arma com diversos canos e uma cinta de balas. No muro está escrito “A alegria do palhaço é ver o circo pegar fogo”.

Mensagem icônica codificada = cena cultural = mensagem conotada

Os soldados foram retratados em pose de descanso, conversando descontraidamente, as armas de guerra valorizadas na composição e o enquadramento que une os soldados à imagem e ao texto ao fundo. Ao associar os dois soldados relaxados, o desenho do palhaço e a frase “A alegria do palhaço é ver o circo pegar fogo”, emerge uma imagem que debocha do Bope: enquanto eles conversam distraidamente, o tráfico atua por trás. Ou que esses soldados somente vão à favela para gerar mais violência.

 Mensagem linguística

A legenda sob a foto diz “Agentes do Bope (Batalhão de Operações Especiais da PM) ocupam o morro do Turano, no Rio, para a implantação da 12ª UPP (Unidade de Polícia Pacificadora)”. A escolha pela combinação da informação denotada (ocupação do morro para implantação de Unidade de Política Pacificadora ) e da imagem depreciativa corrobora uma leitura de que a política de pacificação não irá resolver o problema.

Depois de examinar os processos de conotação mais comuns segundo Barthes (uso de objetos na cena, trucagem, pose, fotogenia etc), os alunos deverão partir para a prática, produzindo imagens que resolvam esses cinco problemas:

1. Exercício com planos
Produzir duas imagens de uma mesma cena: uma com plano geral e outra com um close, de modo que o aspecto fotografado (pode ser uma pessoa, um grupo, um animal) seja objetivo no enquadramento aberto e subjetivo no enquadramento fechado;

2. Exercício com fotogenia
Produzir duas imagens de um mesmo aspecto, de modo que a primeira seja o olhar “real” tanto quanto possível e o segundo seja um olhar embelezado por técnicas como composição em plongée (de cima para baixo) ou contre-plongée (de baixo para cima), uso de ângulos, contra luz etc

3. Uso de objetos na cena
Produzir uma imagem que tenha um objeto no centro das atenções, de modo que o objeto arraste para dentro da cena um significado que não está, necessariamente, presente na realidade da qual a imagem foi retirada;

4. Conotação texto-imagem
Produzir uma foto que tenha um texto dentro da imagem (pode ser “fabricado” pelo autor), de modo que o texto crie uma conotação que não estaria necessariamente presente na realidade;

5. Sintaxe
Fazer duas fotos distintas de modo que possam ser colocadas lado a lado para criar algum significado fruto da aproximação.

Como não teremos acesso à internet durante as oficinas, deixei um guia sobre como organizar um ensaio no Flickr para que os participantes possam publicar o resultado do estudo depois.

Faça o download do material das oficinas aqui.

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Sobre ABujokas

Sou graduada em jornalismo, doutora em educação, professora da Universidade Federal do Triângulo Mineiro e pesquisadora no campo da media literacy/mídia-educação. Embora viva na terra do boi Zebu, não tomo leite e não como carne, porque fazem mal para mim e para o meio ambiente.
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