Sobre atividades de produção

Página que faz parte de tutorial de mídia-educação de curso ofertado pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Produção de Rene Rodriguez Lopez

Página que faz parte de tutorial de mídia-educação de curso ofertado pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Produção de Rene Rodriguez Lopez

Há quatro anos, ministro a disciplina “Comunicação, Educação e Tecnologia” para alunos de licenciaturas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Nesse tempo, 25 turmas cursaram a proposta de mídia-educação e essa experiência me permite olhar para trás e saber com certa segurança o que funciona e o que não funciona.

O curso é organizado em quatro partes. Começamos discutindo uma controvérsia recente envolvendo a cultura midiática como, por exemplo a cobertura dos protestos nas ruas do Brasil em 2013 feita pelas grandes corporações de mídia X aquela feita pelos meios alternativos como o Mídia Ninja.  Este primeiro tópico ajuda a trazer à tona questões centrais para a leitura crítica da mídia: concentração de poder, enquadramento usando recursos de linguagem, comportamento da audiência. Terminamos o tópico discutindo papéis para a escola nesse cenário.

O segundo tópico se debruça sobre as linguagens da mídia, com ênfase na imagem, uma das linguagens mais negligenciadas pela educação básica. As atividades variam de semestre para semestre, mas tratamos de de fotografia, vídeoclipe, publicidade, histórias em quadrinhos, infográficos. No terceiro tópico, exploramos iniciativas de mídia-educação mundo a fora, tendo como referência teóricas as propostas da UNESCO e a experiência britânica, fundamentada nos Estudos Culturais.

Por fim, começamos as atividades de produção, um momento prático-reflexivo, em que os alunos precisam criar conteúdo midiático a partir de um “problema de comunicação”. É essa experiência que eu quero relatar aqui, a partir de quatro propostas: fotografia, histórias em quadrinhos, vídeo e infografia. Em todos os semestres, as quatro últimas semanas são dedicadas à produção de conteúdo, seguindo esta metodologia: 1. observamos exemplos da linguagem selecionada; 2. identificamos os principais códigos e convenções usados nesses exemplos; 3. escolhemos um aplicativo web que facilite a produção e treinamos o uso desse aplicativo; 4. produzimos conteúdo de modo a resolver uma “questão de comunicação”.

Postular uma questão para ser resolvida é uma metodologia rendosa para que as atividades de produção não corram o risco de ser apenas momentos lúdicos (o que, invariavelmente, são), que não sirvam para ensinar sobre mídia. É o que fizemos na atividade com fotografia, sumarizada a seguir.

Experimentando com a linguagem fotográfica

A partir da ideia de três mensagens da fotografia de Barthes (1), observamos imagens diversas publicadas em jornais, revistas e sites a fim de identificar a cena literal ou mensagem denotada, cena cultural ou mensagem conotada, processos de conotação presentes (pose, objetos na cena, fotogenia etc) e o sentido enfatizado pela legenda (a postagem “Leitura e produção de imagens na formação de professores” explica melhor esses conceitos). Nesse processo, vamos construindo o fundamento teórico, na forma de um mapa conceitual. Depois, fazemos exercícios de leitura com outro conjunto de imagens. Por fim, vem a parte prática. Os alunos devem produzir seis imagens conforme o seguinte roteiro:

Enunciado para produção de fotografias

 Essas fotos devem depois ser editadas, melhorando iluminação, refazendo recortes ou aplicando filtros, quando os autores julgarem necessário. Esse trabalho é feito usando um aplicativo web de livre escolha, como Instagram ou Fotoflexer. Por fim, as fotos devem ser postadas no Flickr, juntamente com uma legenda que explique qual é o processo de conotação e como ele foi produzido. Nesse trabalho, aproveitamos para explorar ferramentas de compartilhamento de conteúdo e conhecer a proposta de licenças Creative Commons, usada pelo Flickr. Os alunos seguem este guia, que compõem o material didático da disciplina:

Foram criadas 93 páginas com pelo menos 7 fotos em cada uma. Essas fotos forma depois avaliadas segundo três critérios: 1. se os alunos conseguiram produzir as sete imagens solicitadas; 2. se as legendas tinham objetividade e consistência, isto é, se eles conseguiam expressar em palavras o que tinham feito com a imagem; 3. em que medida a foto atendia o enunciado. Pode-se dizer que, de um modo geral,  turma cumpriu a tarefa. Todas as páginas continham as sete imagens, com respectivas legendas. Embora a maioria dos alunos tenha conseguido produzir as fotos solicitadas, nem todos conseguem escrever a legenda de justificativa com objetividade  (a exemplo do que conseguiram fazer os autores das fotos 1, 2 e 3 ao final deste texto). A  maior dificuldade parecer ser explicitar o conhecimento implícito sobre a linguagem (como ocorreu nas fotos 4 e 5, também ao final).

Veja que, na legenda da foto 4, a autora misturou as ideias de denotação e conotação, cuja distinção é essencial para análise crítica, segundo Barthes. Com efeito, o texto nesse processo não “descreve a imagem” como a autora argumenta, e sim cria uma conotação que não está presente na realidade, mas se estabelece na fotografia. Note que a legenda da Foto 1, que exemplifica o mesmo processo, tem mais precisão.

A autora da foto 5 soube planejar e interpretar o processo de conotação pela presença do texto com propriedade mas, apesar de longa, a legenda não “atinge o alvo”, que é explicitar as contradições entre conotação e denotação. Com efeito, saber empregar termos técnicos das teorias críticas da cultura de massa é um dos objetivos da mídia-educação na formação de professores. Esses termos foram estudados na fase de construção do mapa conceitual sobre fotografia. Esta legenda sugere que a estudante fez uso intuitivo do conhecimento adquirido, embora não tenha conseguido explicitá-lo plenamente.

Com o relato desta pequena experiência, tentei mostrar quão produtivas sãos as atividades de mídia-educação para prover habilidades críticas, criatividade e engajamento com a cultura midiática.

Veja aqui a lista completa das páginas criadas pelos estudantes.

FOTO 1
Autor: Marcos Lucio de Lima
Esse tipo de foto possui um texto dentro da imagem, de modo que esse texto cria uma conotação que não está necessariamente presente na realidade. Assim a marcação de trânsito PARE, juntamente com os “santinhos” espalhados sugerem aos nossos candidatos que parem de poluir nossas ruas durante as campanhas eleitorais

Aqui temos um close normal (1) da “mão” de um violão e um close se utilizando da técnica de composição em plongée (de cima pra baixo) (2) aliando esta técnica com o reflexo natural da cor do violão que nessa imagem se torna o punctum chamando a atenção de quem a olha temos uma imagem fotogênica que busca elevar o nível de beleza do objeto do normal para algo além

FOTO 2
Autor: Marcus Paulo de Morais
Aqui temos um close normal (1) da “mão” de um violão e um close se utilizando da técnica de composição em plongée (de cima pra baixo) (2) aliando esta técnica com o reflexo natural da cor do violão que nessa imagem se torna o punctum chamando a atenção de quem a olha temos uma imagem fotogênica que busca elevar o nível de beleza do objeto do normal para algo além

 
A cena demonstraria apenas uma foto de um animal em um computador. Porém de acordo com Roland Barthes, o objeto ao ser ressaltado pode induzir a foto a outro sentido, distorcendo assim a primeira realidade da foto e criando outra realidade. Ao se colocar a legenda: "Entre gatos e ratos", a primeira realidade (em que é apenas uma foto de um gato em um computador) poderia ser modificada para uma outra realidade que mostraria o conflito irreal entre um gato e o "mouse" que representaria um rato

FOTO 3
Autor: Pedro Henrique Sanfelice
A cena demonstraria apenas uma foto de um animal em um computador. Porém de acordo com Roland Barthes, o objeto ao ser ressaltado pode induzir a foto a outro sentido, distorcendo assim a primeira realidade da foto e criando outra realidade. Ao se colocar a legenda: “Entre gatos e ratos”, a primeira realidade (em que é apenas uma foto de um gato em um computador) poderia ser modificada para uma outra realidade que mostraria o conflito irreal entre um gato e o “mouse” que representaria um rato

 

O processo de conotação texto-imagem é um texto que descreve a imagem que está sendo vista mais que não está necessariamente presente na realidade.A foto a cima mostra uma placa escrito saúde enquanto a moça abaixo está tossindo

FOTO 4
Autora: Mara Rúbia da Silva
O processo de conotação texto-imagem é um texto que descreve a imagem que está sendo vista mais que não está necessariamente presente na realidade.A foto a cima mostra uma placa escrito saúde enquanto a moça abaixo está tossindo

Nesta foto percebemos o valor do texto publicitário na construção da nossa interpretação. Ao mostrar uma mulher comendo um sanduíche sentada em um banco da praça com os dizeres "sabor real", mesmo sabendo que o texto se refere à propaganda de uma padaria, fazemos a relação do "sabor" "real" do sanduíche no qual a mulher está comendo

Nesta foto percebemos o valor do texto publicitário na construção da nossa interpretação. Ao mostrar uma mulher comendo um sanduíche sentada em um banco da praça com os dizeres “sabor real”, mesmo sabendo que o texto se refere à propaganda de uma padaria, fazemos a relação do “sabor” “real” do sanduíche no qual a mulher está comendo

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Sobre ABujokas

Sou graduada em jornalismo, doutora em educação, professora da Universidade Federal do Triângulo Mineiro e pesquisadora no campo da media literacy/mídia-educação. Embora viva na terra do boi Zebu, não tomo leite e não como carne, porque fazem mal para mim e para o meio ambiente.
Esta entrada foi publicada em Aulas CET 2012 - 2, Ferramentas web 2.0, Formação de professores, Registro de aula. ligação permanente.

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