A fotografia da babá, Roland Barthes e os imbecis com voz de prêmio Nobel

babacapa

Foto de João Valadares / Correio Braziliense

“Não achei nada demais.  A babá tá ali trabalhando, como muitas pessoas fazem aos domingos, e deve ganhar até bem. Não entendi o sentido dessa foto”, “Não vejo nada de mais em babá trabalhando. Feio é a inversão de valores dos pais, que deixam de ter contato direto com os filhos,  preferindo conduzir um cão”, “Desde quando ser babá deixou de ser emprego digno? Ah, ela deveria estar recebendo bolsa-família e fazendo cara de coitadinha”, “E quando a patroa é negra e a babá é branca, pode?”, “Gente, essa foto só está aí porque mostra que classe social está participando do protesto!”

No domingo, dia 13, quem não mora em Marte viu a “foto do casal-cachorro-e-babá-empurrando-o-carrinho a caminho do protesto”, tirada no Rio de Janeiro. Notícia publicadas depois informaram ser o vice-presidente de finanças do Flamengo, Claudio Pracownik, sua esposa, Carolina Maia e a babá, Maria Angélica Lima . Em plena era da celebração da cultura visual, potencializada pelas redes sociais, quem teve um pouquinho de paciência para ler a horda de comentários, pode ter se espantado com a disparidade de leituras, a exemplo das destacadas no primeiro parágrafo deste texto, que são reais e foram garimpadas no Facebook.

À primeira vista, parece que estamos imersos num lago de pensamentos esquizofrênicos, mas, se olharmos para esse evento – a foto e os comentários – didaticamente, as coisas podem começar a fazer sentido. O olhar pedagógico sobre a mídia é objeto de uma área do conhecimento ainda pouco conhecida no Brasil que nós, militantes do movimento, chamamos de “mídia-educação”.

Como educadores para a mídia, criamos estratégias que permitam ao aprendiz “olhar a mensagem por dentro”, desmontá-la, identificar suas partes, verificar como cada parte se combina para compor o todo. Depois tecemos hipóteses para explicar como diferentes audiências respondem de modo diferente ao texto. Sem necessariamente se deter em teorias da comunicação, ensinamos nossos alunos a teorizar sobre uma mensagem, seja ela uma reportagem da Carta Capital, uma capa da Veja, um anúncio de sabão em pó, um vídeo clipe do Luan Santana ou uma foto que bombou nas redes sociais. Ao se entregar a esse exercício de análise e teorização, os estudantes se afastam emocionalmente do texto e, com base nas evidências semióticas que coletam, podem formar uma opinião informada sobre aquele conteúdo enquadrado de um modo bem específico.

Boa parte do que hoje sabemos sobre como a linguagem da fotografia funciona devemos ao semiólogo francês Roland Barthes (1915-1980). De um modo sintético, Barthes disse que a fotografia tem em si três mensagens distintas, porém inseparáveis para o leitor comum. Identificá-las equivale a quebrar o enigma da mensagem fotográfica.

A primeira mensagem ele chamou de “cena literal, ou mensagem conotada”, e se refere àquilo que, de fato, estamos vendo. Testemos com a foto do casal & babá. Vemos um plano aberto, com divisão simétrica, de modo que o casal ocupa a metade esquerda da foto e a babá, a metade direita. O homem e a mulher são brancos, magros, usam camisetas iguais com listras largas verde e amarelas, bermuda, tênis e óculos escuros. Ele usa tênis com logotipo que parece ser da Nike e ela, da Adidas. Ela tem cabelo ruivo e bem cuidado e leva um cachorro que parece ser da raça Spitz alemão. Eles olham para as duas crianças no carrinho empurrado pela babá. As crianças também parecem usar roupa verde e amarela e olham para os pais. A babá é negra, está vestida de branco, empurra o carrinho olhando para a frente e tem os lábios cerrados. Objetivamente, isso é tudo.

Mas são três mensagens indissociáveis, lembra? A segunda delas, Barthes chamou de “cena cultural ou mensagem conotada” e se refere ao simbolismo que enxergamos em uma foto – em qualquer foto, segundo ele – e que está associada ao que objetivamente identificamos. Aí reside o enigma da fotografia: ela não é de todo verdadeira, mas também não é mentirosa. O que uma imagem como a do casal & babá faz é mobilizar nossa capacidade de “semiotizar” e fazemos isso comparando os signos ali presentes com as associações que atribuímos a cada signo, usando nossos repertórios e mapas mentais de associação, que variam conforme a idade, a classe social, o gênero, o repertório cultural e, claro, a capacidade de ler o texto e ler o mundo, como já disse Paulo Freire. Vejamos novamente a foto.

No plano captado pelo fotógrafo, o casal e a babá com o seu carrinho tem o mesmo “peso visual”, já que ocupam metades simétricas da imagem. Nada mais simbólico do confronto político atual, em que as classes trabalhadoras ganharam força simbólica não vista em épocas anteriores, graças à mobilidade social que, de fato, ocorreu no governo do PT. Os signos de elite são paradigmáticos na imagem do casal: jeans despretensioso, tênis de marca, óculos escuros, cabelo bem cuidado e um cachorrinho que custa, em média, 3 mil reais. A esses signos se somam as camisetas verde e amarelas que, naquele contexto, podem ser associadas a um engajamento político, mas também ao fanatismo (alienado, diriam alguns) de torcida de futebol, em época de copa do mundo. A babá, por sua vez, além do uniforme (um signo de opressão ao exercício da nossa identidade desde a época da escola), tem expressão tensa no rosto e olha para frente, ignorando a atenção dos patrões às crianças.

Barthes chegou a listar o que chamou de “processos de conotação na fotografia”, isto é, processos sígnicos que encaminham nossa interpretação para direções específicas. Embora, na maioria das vezes, a gente não se dê conta disso. Dois desses processos nos interessam aqui: a pose e a presença de objetos na cena. No primeiro, um fragmento de um gesto espontâneo (coçar o olho, a apoiar a mão na cintura, fazer uma careta etc) assume o status de um gesto convencionado (tipo “estou de olho de em você” ou “estou de mal”). Os lábios cerrados da babá que olha para o que vem à frente podem ser interpretados como tensão social; o olhar dos pais para os filhos pode ser interpretado como desinteressados por tudo o que não seja o seu clã.

Some-se os objetos às poses (roupas e cachorro caros X uniforme opressor) e temos uma narrativa construída pela fotografia que pode ser interpretada como perpetuação da disparidade entre as classes sociais, com a elite se mantendo à frente e ignorando as condições do trabalhador.

São três mensagens, certo? Barthes dizia que, particularmente na fotografia de imprensa (mas não exclusivamente nela), a imagem é sempre acompanhada por um texto. Na época dele, eram as legendas editadas por jornalistas; na nossa, temos também os comentários de redes sociais. Como a imagem oscila ao sabor das ondas da conotação e da denotação, o texto age como uma espécie de âncora, que fixa o sentido da imagem em uma interpretação específica. Quem escreve, escolhe da polissemia que tem à disposição o sentido que pretende enfatizar.

Em se tratando de jornalistas profissionais, o texto vai enfatizar a interpretação que melhor se ajusta à linha editorial do meio de comunicação para o qual trabalha. Em se tratando “dos imbecis que agora têm o mesmo direito à palavra de um prêmio Nobel”, como desabafou Umberto Eco, o que vemos é a mobilização explícita do repertório de classe, nível de instrução, gênero, etc. Agora, os comentários fazem mais sentido. Quem não teve a oportunidade de aprender o que é luta de classes, democracia, cidadania e direitos sociais e políticos, não tem como enxergar a simbologia da foto. Esses verão uma reprodução de relações sociais naturalizadas pela novela, pela publicidade, pelo videoclipe sertanejo, em que ricos e pobres vivem em harmonia, e ninguém precisa se preocupar em aprender a pensar historicamente. Aulas de História, via de regra, são retratadas como a parte chata da escola. Mas a interpretação pode ser diferente, como mostrou o último dos comentários transcritos no primeiro parágrafo deste texto.

A lição que tiramos deste mini evento é que, independentemente da intenção do autor, o público interpreta a mensagem com os recursos que tem, e que vão da mobilização de clichês rasos e explicações ideológicas a análises críticas e ponderadas. A fotografia, pela sua natureza, permite o espectro de interpretações, como se pode ver nos comentários suscitados. Ocorre que vivemos num país democrático, cuja constituição garante acesso à educação pública de qualidade. Nos tempos atuais, essa educação deveria contemplar o direito de aprender a interpretar criticamente a mídia. Já temos conhecimento para promover essa empreitada.

Particularmente no Brasil, onde a concentração de poder sobre os meios de comunicação ainda não enfrentada mostra por esses dias qual é o poder de fogo da mídia para mobilizar o público analfabeto, a mídia-educação poderia oferecer um ponto de equilíbrio, ao ensinar as pessoas como emitir uma opinião informada, a partir das evidências do texto. Afinal, é discutindo que a gente aprende.

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Sobre ABujokas

Sou graduada em jornalismo, doutora em educação, professora da Universidade Federal do Triângulo Mineiro e pesquisadora no campo da media literacy/mídia-educação. Embora viva na terra do boi Zebu, não tomo leite e não como carne, porque fazem mal para mim e para o meio ambiente.
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13 respostas a A fotografia da babá, Roland Barthes e os imbecis com voz de prêmio Nobel

  1. Nati Canto diz:

    Olá. Sou artista visual/fotógrafa e gostei muito muito mesmo desse texto. Acho que todo mundo deveria ler porque é exatamente disso que as pessoas precisam. Aprender a ter mais educação midiática. Parabéns pelo artigo. Eu fiquei curiosa com as citações do Barthes porque eu só li Câmera Clara dele. Em que livro ele diz sobre esses 3 aspectos da imagem? Fiquei com vontade de ler. um abraço!

    • ABujokas diz:

      Olá Nati, o livro do Barthes se chama “O óbvio e o Obtuso” e foi publicado pela editora Nova Fronteira em 1990. Há dois capítulos específicos sobre fotografia: “A mensagem fotográfica”, no qual ele fala das três submensagens, e “A fotografia de imprenda”, no qual ele discorre sobre os processos de conotação.

  2. Von DEWS! diz:

    Gostei do texto, discordo da Paola em alguns pontos, pois parece que ela está sendo meio extremista como aqueles que criticou, mas não quero discutir isso. A imagem é, sim, construída imageticamente para criar discussões de valores, levantar bandeiras etc.. E o questionamento não é exatamente, por quê? Mas de que ela é um recorte, que remete a coisas que estão em trânsito pela mídia atual que, de novo, querem levantar bandeiras, e não, questionamentos reais. Ideologia hoje em dia é uma guerra de egos, onde quem “grita” mais, tem mais poder. Num mundo que parece estar ficando “evolutivamente retrógrado”, pensamentos arcaicos misturados à uma modernidade liberal. E estamos dentro de uma transição, é como se estivéssemos na transição do cró-magnon X homo sapiens (algo do tipo). Quem está dentro dessa mudança não a vê direito, e lutar parece ser o caminho mais óbvio. (O que não é, pois, pelo menos pra mim, todo tipo de violência é errada). E, para não perder o fio da meada, fotos assim, que entram nessas dualidades atuais, servem mais para esse “levantar de bandeiras”, quase inútil, com atritos que beiram o bizarro, ajudando os “imbecis” citados por Umberto Eco. (gostaria de falar mais, mas estou no trabalho haha =P )

    • Paola F. diz:

      Já eu concordo com todo seu comentário, com duas ressalvas: primeiro, a de que eu não sou extremista (pois de forma nenhuma sou ou tive essa intenção no comentário, se assim pareceu, minhas sinceras desculpas). Segundo, de que a pergunta é, também, o por quê – tanto que você mesmx escreveu: “Mas de que ela é um recorte, que remete a coisas que estão em trânsito pela mídia atual que, de novo, querem levantar bandeiras, e não, questionamentos reais”. Aí está o porquê: “querem levantar bandeiras, e não, questionamentos reais”. Ademais, concordo 100% – especialmente no que diz respeito à guerra de egos, ao gritar demais. Infelizmente, as vozes que mais ouvimos são as dos mais extremistas, que gritam mais e mais alto: governistas fanáticos e a extrema direita conservadora. Tenho a esperança de que 90% dos brasileiros estejam longe desses extremos.

      • Von DEWS! diz:

        Sim, sim… por isso disse pareceu extremista, já que não acredito muito nessas legendas de “esquerda governista”, “direita aquilo”, “não-sei-quem opressor”… para mim, parece que existe um universo paralelo governamental, do qual, nós, a maioria do povo independente de classe social, cor credo ou filo (:P) não sabemos nem a metade. Assim como estamos muito por fora do que acontece dentro das grandes empresas midiáticas ou de comunicação em geral… o pouco que já vi, são esquemas em cima de esquemas que, hoje em dia não dá pra separar o bom do mau,; a direita da esquerda, o certo do errado.. é complexo pra falar aqui, mas resumindo, a maioria desses adjetivos que são necessários para rotular (e também se adequar a algum meio), são nomes vazios, e de uma semiótica MENOS óbvia ainda, pois tem mais camadas que podemos perceber. E desculpe também se te chamei de extremista.
        Também tenho esperanças quanto às pessoas, extremismos e violência não levam a lugar nenhum, porém no mundo atual, e ainda mais dentro da Internet, um mero comentário toma proporções que não tem, e que não devia ter, ou influenciar. É o que Eco falou, sem ter estudo ou conhecimento de causa, sua voz tem mesmo potencialidade de um expert na área, e às vezes, causa mais impressão do que aquele que realmente deveria causar. É triste ver que chegamos num nível de velocidade da informação que traz mais revezes do que soluções!

  3. Paola F. diz:

    É claro que esses são os signos da imagem, afinal, ela foi cuidadosamente criada e compartilhada para gerar essa discussão. Mas o questionamento é: por quê? Por que colocar a relação de trabalho, que SEMPRE nos oprime (à medida em que existem patrões e empregados) como uma forma de ironizar e desvalorizar os protestos que, à bem da verdade, estão acontecendo por motivos reais? Essa imagem está sendo largamente utilizada pela esquerda governista para desvalorizar e criticar qualquer posicionamento político que não seja a favor do governo, colocando todo mundo que se opõe ao que vem acontecendo no país no mesmo balaio de “elite branca casa grande opressora conservadora ignorante de direita”, em uma forma irônica de humilhar, deslegitimar e ofender qualquer um que ouse se colocar contra o fã-clube governista. Da mesma forma que vídeos de pessoas que ignoram seu papel ali na manifestação, senhorinhas bem vestidas e retardados extremistas de minorias que querem a volta da ditadura. Por que não compartilham fotos da massa multirracial que comparece? Por que não dão voz a quem SABE o que está fazendo nas manifestações, quem está ali protestando pela indignação com o que vem acontecendo no nosso país há séculos, mas que teve seu auge nos últimos anos, coroado com uma crise sem precedentes? Pois é, para não sair da sua agenda política.
    Em vez de utilizar a arrogância extrema dos trechos ” Quem não teve a oportunidade de aprender o que é luta de classes, democracia, cidadania e direitos sociais e políticos, não tem como enxergar a simbologia da foto. (…) Esses verão uma reprodução de relações sociais naturalizadas pela novela, pela publicidade, pelo videoclipe sertanejo. (…) Aulas de História, via de regra, são retratadas como a parte chata da escola (…)”, entre muitos outros, pense que, apesar da semiótica mais que óbvia tentada pela foto, o impacto que ela causa, nem sua interpretação, são regra. Para muitos, assim como para mim, é apenas mais uma tentativa barata de manobra imagética pró-governo (e olha que nem fui às manifestações e tenho muitas ressalvas a toda essa história de impeachment, discussão que nem cabe aqui). Afinal, a interpretação dessa foto, no que diz respeito à mensagem que quer passar de luta de classes, racismo, direitos humanos, é tão óbvia que nem deveria ser encarada como a grande vantagem intelectual que, pelo seu texto, “vocês” têm. Infelizmente, novamente imperam a arrogância e sentimento de superioridade intelectual que permeiam as classes média e alta governistas.

    • ABujokas diz:

      Obrigada pelo comentário Paola, mas acho que você não compreendeu muito bem o meu texto. Não se trata de semiótica “óbvia” como você mesma diz. Minha perspectiva, baseada na teoria da imagem do Roland Barthes é justamente a oposta: o sentido nunca é óbvio (essa concepção, aliás, pertence a um leitor ingênuo), mas é construído socialmente, através das negociações que o leitor faz com o texto. Os comentários postados no Facebook mostraram dois tipos de negociações: a imagem como um simbolismo natural das relações harmônicas entre patrões e empregados X a imagem como um símbolo da desigualdade de classes no Brasil. O que está em jogo nessas manifestações é justamente a disputa de poder entre dois grupos políticos: um que, historicamente agregou a elite e outro que foi fundado nas bases do movimento operário. A imagem está posicionada no cerne desta disputa e é tudo menos semiose óbvia. O que eu tentei fazer for trazer uma perspectiva analítica que trouxesse à tona as sutilezas dessa representação, para que a pessoas tenham uma oportunidade de refletir sobre como suas mentes respondem aos códigos da linguagem midiática. Se você tiver a oportunidade de conhecer um pouco mais a prática da mídia-educação, verá que faz sentido falar em analfabetos midiáticos sim. Essa expressão não foi usada para desqualificar o público, como você pode parece ter interpretado, mas sim para reclamar o direito que temos de aprender a ler a mídia criticamente. Daí a minha defesa da promoção da mídia-educação.

      • Paola F. diz:

        No final das contas, seu argumento não discordou do meu. Afinal, não discordei que a imagem gera interpretações diferentes (apesar de possuir intenção semiótica óbvia, a mensagem que quer passar é clara), mas, sim, pontuei que sua leitura disso diminui qualquer interpretação da imagem diferente da sua, associando-a a ignorância. A crítica também está aí, em ver que uma imagem, texto ou qualquer produção de conteúdo, que sempre é um recorte da realidade, pode ser recortada de forma a favorecer um ou outro ponto de vista ou ideologia. Neste caso, é claro o que ela quer defender: que as manifestações são exclusivas da elite, que é fútil e opressora. No que eu discordo, pois não é o que vejo. Se eu não fosse capaz dessa análise crítica, que insinua que não tenho, minha leitura seria exatamente a que esse tipo de foto/conteúdo quer criar: de que os milhões de pessoas presentes nas ruas se dividiam entre analfabetos políticos, elite conservadora, militaristas, alienados pela mídia e fúteis desocupados que vão pela festa. Não fazer esse tipo de avaliação e aceitar que a imagem é pura e simplesmente um retrato da realidade, sem nenhuma tentativa do fotógrafo de corroborar o conteúdo que pretende ilustrar, é que é, para mim, “analfabetismo midiático” [SIC].

  4. Paola F. diz:

    É claro que esses são os signos da imagem, afinal, ela foi cuidadosamente criada e compartilhada para gerar essa discussão. Mas o questionamento é: por quê? Por que colocar a relação de trabalho, que SEMPRE nos oprime (à medida em que existem patrões e empregados) como uma forma de ironizar e desvalorizar os protestos que, à bem da verdade, estão acontecendo por motivos reais? Essa imagem está sendo largamente utilizada pela esquerda governista para desvalorizar e criticar qualquer posicionamento político que não seja a favor do governo, colocando todo mundo que se opõe ao que vem acontecendo no país no mesmo balaio de “elite branca casa grande opressora conservadora ignorante de direita”, em uma forma irônica de humilhar, deslegitimar e ofender qualquer um que ouse se colocar contra o fã-clube governista. Da mesma forma que vídeos de pessoas que ignoram seu papel ali na manifestação, senhorinhas bem vestidas e retardados extremistas de minorias que querem a volta da ditadura. Por que não compartilham fotos da massa multirracial que comparece? Por que não dão voz a quem SABE o que está fazendo nas manifestações, quem está ali protestando pela indignação com o que vem acontecendo no nosso país há séculos, mas que teve seu auge nos últimos anos, coroado com uma crise sem precedentes? Pois é, para não sair da sua agenda política.
    Em vez de utilizar a arrogância extrema do trecho ” Quem não teve a oportunidade de aprender o que é luta de classes, democracia, cidadania e direitos sociais e políticos, não tem como enxergar a simbologia da foto. (…) Esses verão uma reprodução de relações sociais naturalizadas pela novela, pela publicidade, pelo videoclipe sertanejo. (…) Aulas de História, via de regra, são retratadas como a parte chata da escola (…)”, pense que, apesar da semiótica mais que óbvia tentada pela foto, o impacto que ela causa, nem sua interpretação, são regra. Para muitos, assim como para mim, é apenas mais uma tentativa barata de manobra imagética pró-governo (e olha que nem fui às manifestações e tenho muitas ressalvas a toda essa história de impeachment, discussão que nem cabe aqui). Afinal, a interpretação dessa foto, no que diz respeito à mensagem que quer passar de luta de classes, racismo, direitos humanos, é tão óbvia que nem deveria ser encarada como a grande vantagem intelectual que, pelo seu texto, “vocês” têm. Infelizmente, novamente imperam a arrogância e sentimento de superioridade intelectual que permeiam as classes média e alta governistas.

    • Denis Vitor diz:

      Ela não foi cuidadosamente criada pelo fotógrafo, ela foi criada pela realidade sócio cultural em que os sujeitos estão inseridos. O fotógrafo captou o momento.

      • ABujokas diz:

        Concordo Denis. Embora o olhar profissionalmente treinado do fotógrafo sempre vá tentar captar a realidade em sua melhor versão, não há como inventar no fotojornalismo, certo? Ocorre que, uma vez captada, editada e publicada, a foto se torna uma mensagem vazia de significado, à espera de ser preenchida pelo leitor. É aí que começa a mobilização do nosso repertórioas, para dar sentido à articulação de códigos que temos diante de nós. Quanto mais chances de aprendizado temos, melhor podemos interpretar. Quanto menos chances de aprendizado, mais tendemos a reproduzir os modos de interpretar hegemonicamente distribuídos pela mídia historicamente controlada por grupos de elite.

  5. Acir Mario Karwoski diz:

    Uma boa leitura da fotografia. Parabéns.

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