Bobagens das manifestações, Pesquisa Mundial de Valores e literatura modernista no Brasil

feminicidio sim

Foto da marcha pró-impeachment em 16 de março de 2016 e quadro de Tarsila do Amaral representando uma família brasileira

Chama-se “Pesquisa Mundial de Valores” a sondagem que vem sendo feita por uma rede de cientistas sociais desde 1981, e que chega a cobrir 85% da população mundial. O objetivo é estudar a dinâmica das mudanças de valores e suas conexões com o desenvolvimento econômico e com a democratização das nações.

De um modo bem resumido, pode-se dizer que a modernização socioeconômica (industrialização, mobilidade social, garantia de direitos básicos como moradia, educação, saneamento, serviços de saúde etc) gera capacidades culturais que permitem às pessoas conduzir seus projetos de vida baseadas em escolhas autônomas, e não na aceitação não discutida de regras impostas pela tradição cultural (como patriarcalismo, por exemplo).

Embora a modernização não seja um processo linear, as sucessivas ondas da pesquisa mostram que o mundo, de um modo geral, caminha para a democracia (em oposição à ditadura), para os valores seculares racionais (em oposição aos valores tradicionais) e para os valores de auto-expressão (em oposição aos valores de sobrevivência).

No site da pesquisa, os coordenadores do projeto explicam o que cabe em cada uma das quatro categorias de valores:

Os valores tradicionais enfatizam a importância da religião, dos laços familiares, da obediência incondicional à autoridade e da preservação de valores familiares tradicionais (como a mulher ter de casar virgem, por exemplo). Quem defende esses valores, em geral, rejeita o divórcio, o aborto, a eutanásia e suicídio. Essas sociedades têm altos níveis de orgulho nacional, porém numa perspectiva nacionalista.

Os valores seculares-racionais se configuram como uma oposição aos valores tradicionais.  E dão menos ênfase à importância da religião, não prezam valores familiares tradicionais e não acham que a autoridade deve ser sempre obedecida. O divórcio, o aborto, a eutanásia e o suicídio são vistos como relativamente aceitáveis, embora o suicídio seja o menos aceito.

Os valores de sobrevivência enfatizam a segurança econômica e material, tendem ao etnocentrismo (termo da Antropologia para designar a concepção segundo a qual um  grupo étnico ou cultura se acha o centro do mundo) e registram baixos níveis de confiança (nos outros e nas instituições, por exemplo) e de tolerância (religiosa, política, de identidade de gênero).

Por fim, os valores de auto-expressão tendem a atribuir importância elevada à proteção do ambiente, à tolerância a estrangeiros e à diversidade sexual, à igualdade de gênero e também preza o aumento da participação individual e coletiva nos processos de decisão sobre a vida econômica e política.

A sondagem é feita com um questionário padrão, que vai sendo aprimorado a cada onda, no qual as pessoas devem atribuir pontos segundo uma escala que vai de -2 (concordo plenamente com a afirmação) a 0 (sou indiferente) a 2 (discordo plenamente), para afirmações do tipo “É mais importante para uma criança aprender obediência e fé religiosa do que independência e determinação”, “A homossexualidade nunca é justificável”, “O aborto nunca é justificável”, “Os homens são melhores líderes políticos do que as mulheres”, “O governo deveria assumir mais responsabilidades para assegurar o sustento de todos”, “A imaginação não é uma das coisas mais importantes a ser ensinadas a uma criança”, “Nunca participei e nem pretendo participar de um boicote”, “A democracia não é necessariamente a melhor forma de governo”, “Sou contra a ajuda econômica dos países mais ricos aos países mais pobres”, e por aí vai.

A análise da atribuição de pontos nos questionários somada a uma série de outros fatores socioeconômicos permite aos pesquisadores tecer algumas considerações sobre o fortalecimento da democracia entre as nações pesquisadas:

– O desejo de liberdade de escolha e autonomia é uma aspiração humana universal, mas não é a principal prioridade quando as pessoas sentem que a sobrevivência é incerta (significa concordar, ainda que parcialmente, com a afirmação “A democracia não é necessariamente a melhor forma de governo”, por exemplo). Em outras palavras, as pessoas parecem aceitar viver num ambiente mais repressor quando há pobreza, mas tendem a priorizar as liberdades civis e políticas quando as chances de vida mínimas estão garantidas.

– Quando as necessidades materiais e as liberdades civis e políticas estão mais garantidas, registra-se uma ênfase crescente nos valores de auto-expressão (atribuir 2 pontos para a afirmação “A imaginação não é uma das coisas mais importantes a ser ensinadas a uma criança”, por exemplo).

– Os achados da sondagem mundial indicam que quando os valores de auto-expressão são enfatizados, estão dadas as condições para o fortalecimento das instituições democráticas numa sociedade.

– Com o avanço da industrialização e o surgimento da chamada “sociedade pós-industrial” (que coincidiu com o que eles chamam de “substituição de gerações”), os valores de auto-expressão se expandiram em diversas nações, o que abalou regimes autoritários estabelecidos. Essa tendência foi registrada na terceira onda da pesquisa, realizada entre o final dos anos 80 e o início dos anos 90. Industrialização, chances de vida, descoberta da importância da auto-expressão foram fatores que contribuíram para promover as democratizações mais recentes, como a brasileira.

No Brasil, as editoras Francis e Verbena publicaram o livro “Modernização, mudança cultural e democracia – sequência do desenvolvimento humano”, escrito pelos coordenadores gerais da pesquisa, Ronald Inglehart e Christian Welzel.

O gráfico da página 85, que mapeia a relação entre níveis socioeconômicos (obtidos dos Indicadores de Desenvolvimento Mundial do Banco Mundial, publicado em 2002) e a pontuação nas escalas dos quatro valores (tradicionais, seculares-racionais, de sobrevivência e de auto-expressão) traz um dado revelador (e assustador) sobre o Brasil: somos uma nação de renda média (estamos no mesmo grupo de Argentina, Portugal, Polônia, Lituânia), mas que sustenta valores de nações empobrecidas (como Argélia, Marrocos, Zimbábue e Jordânia). É só olhar no gráfico: em termos de valores, o Brasil está mais próximo do Paquistão do que de Portugal!

grafico wvs

A pesquisa mundial de valores será a porta de entrada para tratar do Modernismo na literatura, no último de três experimentos que estamos realizando no escopo do projeto “Mídia-educação no Ensino Médio – integrando leitura e produção de conteúdo multimídia”. Nossa ideia é incentivar a leitura de ficção, manifestos, cartas, artigos e da produção pictórica dos protagonistas da Semana de Arte Moderna, a partir da perspectiva de valores implícitos nessas produções. Que valores esses artistas assumiam? Quais criticavam? Onde estão essas pistas?

Numa época em que senhorinhas manifestam-se na Avenida Paulista ostentando cartazes onde se lê “Feminicío sim, Fomenicídio não!”, parece pertinente discutir os motivos que nos levam, pelo menos em termos de valores, a ser parecidos com aquele país onde maridos podem matar suas mulheres apedrejadas, porque desconfiam que estão sendo traídos. Se você não acredita, assista o filme “O Apedrejamento de Soraya M.”, do diretor Cyrus Nowrasteh.

As bobagens que as pessoas publicam nas redes sociais dizem muito sobre os valores que vigoram (ou que se arrastam) numa sociedade. Cabe também à mídia-educação enfrentar essa parada. Veremos no que vai dar.

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Sobre ABujokas

Sou graduada em jornalismo, doutora em educação, professora da Universidade Federal do Triângulo Mineiro e pesquisadora no campo da media literacy/mídia-educação. Embora viva na terra do boi Zebu, não tomo leite e não como carne, porque fazem mal para mim e para o meio ambiente.
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