Projeto Redeci propõe mídia-educação como ferramenta para promover o engajamento cívico e a leitura crítica

Alunas da Escola Estadual Nossa Senhora d'Abadia, de Uberaba, MG, produzem pautas jornalísticas nas oficinas do projeto Redeci

Ontem, 6 de fevereiro, começamos o curso de extensão universitária “Edição e Remix de Conteúdo Digital”, que está sendo oferecido para alunos dos cursos de licenciaturas e Serviço Social da Universidade Federal do Triângulo Mineiro.

O objetivo do curso é preparar os estudantes para colaborar no nosso projeto “Redeci”, em execução na universidade desde janeiro de 2011, com recursos do programa “Novos Talentos” da Capes. Trata-se de um projeto de extensão que se compromete em oferecer 3 atividades de 40 horas cada para estudantes do Ensino Médio, nas dependências da universidade.

A proposta deste projeto é criar um site de engajamento cívico de jovens, composto por duas esferas. Por um lado, o site disponibiliza recursos educacionais abertos para ensinar técnicas de produção de conteúdo em texto, foto, áudio e vídeo. Por outro, disponibiliza um mapa da regiã central de Uberaba, MG, com pontos demarcados onde são oferecidos serviços públicos para o jovem nas áreas de educação, saúdeo e cultura. O site permite que sejam associadas mídias aos pontos do mapa. Cada mídia pode receber comentários. Os estudantes que vêm para as oficinas aprendem as técnicas de produção, depois visitam os locais mapeados, coletam informação e a compartilham no mapa.

As oficinas são organizadas em três atividades que se complementam:

1 – Uso de ferramentas web 2.0
Nesta atividade , os alunos aprendem a usar ferramentas que serão úteis à produção de conteúdo, tais como criar contas em serviços web, usar programas na nuvem para edição de imagem, baixar e instalar programas gratuitos para edição de áudio e vídeo, armazenar, publicar e compartilhar conteúdo, organizar a informação usando ferramentas na nuvem de bookmarking e mapeamento. Todas as tarefas são feitas a partir de produção de conteúdo real sobre temas de relevância social como, por exemplo, direitos do jovem trabalhador, programas de saúde sexual e reprodutiva, liberdade de expressão, prevenção da violência, participação política, expressão artística.

2 – Leitura crítica da mídia
Nessa atividade, os alunos experimentam técnicas de produção jornalística e avaliam o resultado da produção em termos de linguagem e representação. Por um lado, analisam matérias publicadas pela mídia sobre assuntos semelhantes aos quais estão produzindo conteúdo, para verificar como são feitas e quais são as representações presentes ali. Por outro, identificam representações decorrentes das suas próprias produções, e tentam descobrir o que fizeram para gerar determinada representação. O exercício é feito na prática de produção guiada por pautas jornalísticas que versam sobre diversos aspectos conceituais e práticos do exercício da cidadania.

3 – Produção e compartilhamento de conteúdo sobre cidadania
Depois de ter adquirido prática com o uso de recursos tecnológicos digitais e de ter  desenvolvido olhar mais apurado sobre as linguagens da mídia, os alunos produzem conteúdo em texto, foto, áudio e vídeo sobre serviços públicos oferecidos na cidade para o público jovem, nas áreas de educação, saúde e cidadania.

Entre 2 de agosto e 20 de outubro, foram realizadas 92 horas de oficinas para 10 estudantes do Ensino Médio da Escola Estadual Nossa Senhora d’Abadia, que completaram as atividades 1 e 2 e iniciaram a atividade 3. Infelizmente, desde julho de 2011 stamos aguardando a compra de um servidor que será fornecido como contrapartida da UFTM para hospedar o site. Como o servidor não veio, o site não ficou disponível e não pudemos concluir a atividade 3. Esperamos poder realizá-la ainda neste semestre, com a nova turma de alunos que deve vir a partir de março.

Neste ano também esperamos envolver alunos das licenciaturas para colaborar nas oficinas. Para preparar esses alunos, na semana de 6 a 10 de fevereiro, enquanto as aulas não começam, estou ministrando um curso de extensão universitária que sintetiza as três atividades do projeto. Os participantes vão experimentar as técnicas de produção de conteúdo e publicá-lo em blogs pessoais.

Nos próximos dias, o desenvolvimento deste curso de extensão será registrado aqui e marcado com as categorias “Projeto Redeci” e “Formação de Professores”.

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Práticas de mídia-educação no Brasil

Depois de dois meses estudando materiais pedagógicos, planos de ensino e esquemas de trabalho da mídia-educação inglesa, é hora de avaliar em que medida aquelas experiências servem à nossa realidade brasileira, em especial na Universidade Federal do Triângulo Mineiro.

Voltei para casa com uma interrogação: que tipo de profissional, no Brasil, é melhor habilitado para criar materiais didáticos de mídia-educação? Os jornalistas e publicitários? Os pedagogos, os professores formados em Letras?

Do lado dos profissionais da comunicação (e falo isso por experência própria, já que ou graduada em jornalismo), falta um espaço na formação que inclua aspectos fundamentais das práticas educativas tais como elemtnos de didáticas e critérios de avaliação da aprendizagem. Creio que esses fundamentos ajudam um produtor de material didático a pensar no que fazer no começo, no meio e no fim de uma proposta, que tipo de atividade desenhar, como roganziar o material para tais atividades, que parâmetros serviriam para avaliar o que os alunos aprenderam e que diferença a mídia-educação faria na vida deles.

Do lado dos profissionais da educação (e também falo isso por experiência própria, porque, desde o mestrado, convivo com professores e pesquisadores do campo educacinal) falta a formação para compreender a cultura midiática em termos que vão além da influência negativa da mídia. Conhecer aspectos da linguagem, da regulação, do comportamento da audiência, das práticas profissionais  daria aos educadores mais conhecimento para manipular as mensagens e moldá-las para o uso em atividades educativas. De certo modo, é isso que venho tentando fazer nas minhas aulas de Comunicação, Educação e Tecnologia, e tenho plena consciência de que mal consegui criar uma proto-proposta.

Talvez não haja muito mais o que fazer além de testar propostas, na base da tentativa e erro. Há três anos venh trabalhando com a formação de professores em mídia-educação e todo semestre eu mudo o plano de ensino. Desta vez, não vai ser diferente.

Sendo assim, o ano de 2012 começa com uma nova proposta: um curso de extensão de 15 horas, focado na edição e remix de conteúdo digital. A proposta é adaptar algumas técnicas de produção jornalística para não-profissionais e criar atividades que unam a leitura crítica da mídia, a produção de conteúdo original e o remix com informações já disponíveis na web. Tudo isso usando ferramentas web 2.0 multimodais e atitudes éticas no trato da informação como, por exemplo, o respeito aos direitos autorais.

O registro dessa experiência será feito neste blog, a partir da próxima segunda-feira, 6 de fevereiro.

Veja aqui o material impresso do curso:

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Mídia-educação no museu

O Museu da História do Povo, em Manchester, organizou a exposição “Picturing Politics – Exploring the political poster in Britain“, que reúne mais de 60 posteres de campanhas políticas desde o início do século 20.

“Apesar do rádio e da televisão e da internet, o poster sobrevive como um resquício da política vitoriana. Enquanto os eventos políticos em si já se dissparam da nossa memória coletiva, os poster permanecem como a última herança visual e esta exposição explora tal legado”, anuncia o painel de abertura. ”

Segundo os organizadores, os posteres nos ensinam quatro coisas fundamentais:

1. Aquilo que parece politicamente novo, na verdade não é;

2. Símbolos e ícones são elementos vitais para a nossa compreensão da política;

3. Apesar dos partidos gastarem milhões com a produção de posteres, eles não sabem ao certo se esse recurso funciona;

4. Posteres são lugares onde arte e política se encontram.

A “museologia” usada me pareceu exemplar. Longe de pendurar um monte de quadros na parede e deixar o visitante que se vire para compreender a informação disponível ali, o que os curadores fizeram foi dissecar a linguagem comum. E mostrar como, apesar das inovações técnicas e estéticas, o argumento parece ser sempre o mesmo: se você votar na oposição, a Inglaterra vai voltar a ter filas de gente procurando emprego.

Logo na entrada, um painel descreve os estilos mais típicos e desmonta a sua estrutura, comparando exemplos do início do século, até o poster icônico da última campanha, que elegeu o primeiro ministro David Cameron, do partido Conservador.

Na sequência, um painel interativo explica o papel dos elementos da linguagem visual: ícones facilmente reconhecíveis para lugares, épocas, classes sociais; e símbolos historicamente associados a valores importantes para a política, tais como honestidade, esperança e coragem. O mais curioso foi saber que, na cultura britânica, o cachimbo é um símbolo de confiabilidade!

Na história das campanhas políticas inglesas, o cachimbo primeiro foi um ícone associado ao primeiro ministro Harold Wilson, e depois ganhou vida própria, significando confiabilidade. O charuto de Churchil não teve a mesma sorte: é facilmente reconhecido como um símbolo dos ricos e pedantes

Depois de conhecer um pouco a linguagem do poster, o visitante pode explorar o acervo, organizado em quatro conjuntos: campanhas após a I Guerra, a campanha “Labour for security”,”Lets go with Labour” e “People Power”.

A campanha “Labour for Security” foi lançada nas eleições gerais de 1945, com nove  posteres que explicitamente associavam o Partido Trabalhista com o sacrifício das forças armadas, argumentando que somente os trabalhadores poderiam garantir aos soldados o futuro que eles mereciam.

Nos anos 60, o slogan “Let’s go with Labour” usava uma expressão jovem, para afastar a ideia de que se tratava de um partido com ideias retrógradas, como mostraram as eleições anteriores. O design se inspirava em modernos layouts de propaganda, com letras garrafais e ângulos. Curioso foi ver o ícone da mão com sinal de positivo que hoje sai do Facebook para os sites de partidos e candidatos. Realmente, como disseram os curadores, aquilo que parece novo, não é…

Design moderno para uma frase da hora: a estratégia para fazer o Labour deixar de parecer um partido velho

A seção “People Power” reúne principalmente material da última campanha. Em 2010, David Cameron lançou o manifesto da “Big Society”, convidandoo povo a assumir o controle de suas próprias vidas para se tornarem parte da grande sociedade. Os pais teriam o poder de tocar as escolas dos filhos, os moradores poderiam opinar e até vetar decisões do conselhos locais, as comunidades poderiam tomar conta de seus postos de correio locais, numa explícita crítica ao modo trabalhista de conduzir o Estado. As pesquisas logo mostraram que os pais não estavam muito a fim de assumir a responsabilidade pela escola dos seus filhos, mas, ainda assim, a ideia da “Big Society” como uma “Grande Ideia” prevaleceu na campanha.

"Existe uma coisa chamada sociedade, que não é exatamente a mesma coisa que o Estado", argumenta o poster da campanha "Big Society"

Como não poderia deixar de ser, o bate-boca entre oponentes também está presente nas campanhas eleitorais dos polidos britânicos. Uma seção especial mostra como um partido afilneta o outro e a prática “sórdida” dos conservadores é contrastada com a elegância dos “novos trabalhistas” liderados por Tony Blair (lembre-se de que este é o Museu da História do Povo).

Num dos mais famosos posteres da última campanha, os conservadores fizeram uma montagem com os olhos de Blair e o associaram com uma frase supostamente dita por Clare Short, uma dissidente do Partido Trabalhista: “Eu às vezes os chamo de pessoas que vivem no lado escuro”. Sobre o “Novo Trabalhismo”, ela disse que “É uma mentira. E é perigoso.” A fim de enfatizar o caráter fantasioso do poster, o museu o coloca lado a lado com a campanha do Novo Trabalhismo. Nela, Tony Blair aparece descontraído, de mangas arregaçadas.

O mesmo Tony Blair, nas perspectivas dos Conservadores e dos Trabalhistas

Obviamente, não há como saber que tipo de influência uma estratégia como essa tem sobre a decisão de voto das pessoas. O fato é que os publicitários continuam tentando. O lado bom dessa história é que, passadas as eleições, os posteres se transformam em registros da cultura midiática que nos ajudam a entender como essa esfera pública levemente esquizofrênica funciona. Aí sim, funciona.

Veja aqui uma pequena coleção de posteres políticos da Revista de História da BBC.

Veja aqui o acervo de material de campanha do Partido Trabalhista inglês.

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Compartilhando sons

http://www.freesound.org

Os alunos que participaram do projeto Persistence of Vision (veja na postagem anterior) usaram o site Freesound para obter sons incidentais. Trata-se de um site de compartilhamento usado por educadores. Para usá-lo, é preciso fazer uma conta. Os usuários podem postar e baixar arquivos de som, trocam ideias e informações sobre atividades educativas. O conteúdo é organizado por tags definidas pelos usuários que postam os arquivos. O site usa licencas Creative Commons.

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Persistence of Vision

Ainda durante o seminário sobre o modelo de progressão da aprendizagem em mídia-educação (veja na postagem anterior), Cary Bazalgette, que foi diretora do departamento de Educação do British Film Institute até 2007 e hoje trabalha como consultora free-lancer em mídia-educação, apresentou resultados de um projeto chamado “Persistence of Vision (POV)”. O projeto foi executado pela Media Education Association, com recursos do UK Film Council’s, da organização Creativity Culture Education e apoio de três autoridades locais de Devon, Norfolk e Worcestershire.

O objetivo do POV é integrar conhecimentos de mídia ao currículo da escola primária, particularmente nas aulas de inglês. A atividade apresentada inseriu técnicas de animação no estudo da linguagem poética.

A equipe partiu de três questões: 1. Como desenvolver habilidades criativas e capacidades para analisar criticamente o resultado da criatividade? 2. Qual é a pedagogia apropriada para tanto? 3. Quais são os recursos técnicos mais simples que podem ser usados?

Usando editores de vídeo simples como o MovieMaker e repositórios de som disponíveis na internet, alunos e professores podem se engajar na produção de pequenos vídeos que exercitam elementos da linguagem da video-arte.

Cary apresentou produções que foram resultado de uma atividade na qual os professores e seus alunos deveriam escolher um som não verbal e construir uma animação sobre ele. Este foi um dos resultados:

Space Moves from Gail West on Vimeo.

Atividades como essa, segundo os coordenadores do projeto, criam as seguintes demandas:

– Aprender a animar um objeto inanimado e dar a ele significado e emoção;

– Identificar, caracterizar e apresentar a essência de algo ou alguém;

– Saber ajustar o tempo e o ritmo, o que implica em tomar decisões para comprimir ou estender o tempo real e arcar com as consequências das escolhas.

Em termos de habilidades desenvolvidas ou exercitadas, eles destacam essas:

– Compreender como funcionam composição e enquadramento;

– Compreender a linguagem das cores e das formas;

– Manipular aspectos técnicos e materiais artísticos;

– Combinar voz, música e sons incidentais;

– Discutir criticamente questões de estilo, técnica e significado;

– Trabalhar com o surreal e o metafórico.

Os depoimentos dos estudantes parecem corroborar a posição dos pesquisadores, de que as atividades que unem mídia-educação, artes e literatura dão às crianças experiência para lidar de maneira criativa com a linguagem, refletir sobre questões de meta-linguagem e aprender a ler mensagens midiáticas com mais atenção:

“Animar uma poesia obriga você a penser no significado das palavras, para depois encontrar uma imagem para aquele significado e colocar tudo no tempo certo”.

Trata-se de uma proposta trabalhosa, porém gratificante mas que, segundo os autores, tem no currículo o maior obstáculo. “O currículo da escola primária é muito estreito e difícil de contemplar a mídia-educação”, nas palavras dos autores.

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Compreendendo o aprendizado em mídia-educação

Cary Bazaldette apresenta resultados da pesquisa sobre um modelo de progressão da aprendizagem em mídia-educação

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em 1 de dezembro, o London Konwledge Lab promoveu o seminário “Researching Media Learning”, que apresentou resultados parciais da pesquisa coordenada pelo professor David Buckingham, que investiga o desenvolvimento de um modelo de progressão da aprendizagem em mídia-educação.

Os pesquisadores partem do contexto peculiar do sistema educacional do Reino Unido que desde os anos 70 promovem algum tipo de educação para a mídia nas escolas e desde a segunda metada dos anos 80 oferece cursos A level sobre Estudos de Mídia. A promoção da media literacy se tornou objeto de política pública específica desde 2003, mas o que os pesquisadores estão se perguntanto é: em que medida a realidade combina com a retórica?

O foco da pesquisa, portanto, são as práticas cotidianas e não somente as melhores práticas. Para isso, eles desenvolveram uma metodologia que contemplou sondagens quantitativas com questionários para delinear os hábitos de consumo de mídia de professores e alunos, observação de mais de 800 horas de aula e aplicação de atividades específicas de mídia-educação focadas em quatro temáticas: 1. Produção de uma narrativa audiovisual, a partir do conceito-chave de linguagem; 2. Estudo de celebridades, tendo como referência o conceito-chave de representação; 3. Estudo do processo de produção de notícias, a partir do conceito-chave de instituições de mídia; e 4. Análise das repercussões de uma campanha de promoção da saúde, baseada no conceito-chave de audiência.

O material coletado está em fase de análise mas, durante o seminário,  a equipe adiantou alguns resultados:

– Considerando as mídias tradicionais, o uso dos professores e dos alunos não é tão diferente, a distância aparece quando se investiga o uso das novas mídias. Os professores manifestaram preferências nessa ordem: TV, música, rádio, jornais, internet e games (15% deles disseram jogar). Os alunos têm as seguintes preferências: TV, música, games, internet e notícias (35% afirma ler notícias pela internet).

– Especificamente sobre a cultura digital, a sondagem mostrou que  59% dos alunos usa o Facebook com regularidade, 40% usa o site Bebo e 5% tem Twitter. Embora 43% dos professores tenha página no Facebook, 90% do uso da internet é “funcional”: fazer compras, mandar e-mails, realizar operações bancárias.

– Sobre a produção criativa dos estudantes, a pesquisa mostrou que 87% grava filmes e os publica, mas não usa qualquer sistema de edição; 88% faz e publica fotos e 20% faz algum tipo de website.

O professor Andrew Burn, responsável pela apresentação dessa primeira sondagem, enfatizou algumas questões emergentes: “O professor incorpora a cultura do aluno nas aulas de mídia-educação?”, “os alunos são capazes de refletir sobre as possíveis respostas da audiência aos seus produtos?”, “É possível identificar um modelo de tomadas de decisão em relação à criatividade para gerar um conteúdo midiático?”.

Em relação às atividades testadas, o discurso da equipe é o de que esse tipo de iniciativa deve ter como objetivo ensinar o estudante a teorizar sobre a mídia (o que é bem diferente de aprender teorias sobre). Teorizar significa levantar hipóteses sobre, por exemplo, as nuances entre realismo de fantasia; presença e ausência; objetividade e tendenciosidade; construção de estereótipos; variações na interpretação; fontes de influência.

Um exemplo de como fazer isso foi descrito na atividade sobre estudo das respostas da audiência. O objetivo, eles explicam, é mover os estudantes da percepção pessoal para a percepção social do comportamento do público. Para tanto, a atividade começou com uma discussão de quatro questões:

1. Os jogos violentos estimulam a gressividade?

2. A TV educativa é boa?

3. O Facebook faz as crianças crescerem menos sociáveis?

4. A publicidade faz as meninas quererem crescer mais rápido?

Todo mundo tende a ter uma resposta pronta para cada uma dessas questões, na grande maioria das vezes baseada em concepções subjetivas. Entretanto, para poder ser capaz de teorizar (logo refletir e ter atitute autônoma) sobre a mídia, as crianças e jovens devem treinar habilidades para emitir opiniões baseadas em evidências e não somente nas impressões pessoais e não raro inconsistentes.

Como o material aind anão foi todo analisado, o grupo não tem dados mais conclusivos. Por hora, sabe-se que algumas coisas dão certo, outras não.  As discussões, em geral, tendem a ser mais produtivas, enquanto que os trabalhos práticos de produção de conteúdo tendem a trazer mais contratempos. Ocorre que, na concepção do grupo, estudar a mídia implica em ler, escrever e teorizar sobre, usando diversas linguagens e recursos. Eles imaginam a situação adequada como aquela em que as práticas de mídia-educação tratam das ligações entre linguagem e representação e sua mútua relação com a audiência, lendo e escrevendo em linguagens multimodais.

Por hora, a conclusão é: precisamos de uma pedagogia adequada. Mas como é essa pedagogia?

 

 

 

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Recursos educationais para a mídia-educação

Página de navegação do iCritique

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O iCritique é um software desenvolvido por Steve O’Hear, um jornalista especializado em tecnologia que também trabalha como programador. A diferença entre esta plataforma e, por exemplo, o Youtube, é que esse programa pode ser instalado em um servidor e gerenciado por um professor. Torna-se, portanto, um ambiente seguro para postar conteúdo produzido por crianças.

O site tem uma série de ferramentas que facilitam a análise e os comentários sobre os vídeos, além de oferecer material que propõe uma ação pedagógica adequada ao uso dos recursos. Pena que está tudo em inglês.

Pessoas interessadas em usar o iCritique podem fazer o download gratuito e trocar ideias com o autor.

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Questões para a formação de professores em mídia-educação

Media Matters foi produzido pelo English and Media Centre, com apoio do Department of Education

O relatório “Media Matters” apresentado na postagem anterior reune dados sobre as impressões dos professores que lecionam nos cursos de media studies. Quase 80% deles dizem estar satisfeitos por terem escolhido esse assunto para ensinar, apesar de não terem o mesmo reconhecimento profissional de seus colegas que lecionam as matérias clássicas, tais como matemática e inglês.

 

 

 

 

 

 

A pesquisa investigou quais são os assuntos que eles mais gostam de ensinar, dentro das possibilidades desenhadas pelos referenciais curriculares e os resultados foram esses:

– 37% preferem ensinar estudo de filmes clássicos

– 32%  gostam de ensinar mídias alternativas

– 27% preferem ensinar cultura pop

Os assuntos que eles menos gostam são:

– o modo como as corporações de mídia funcionam(45%)

– uso de novas tecnologias (22%)

Os autores avaliam que a recusa em ensinar instituições de mídia se deva ao fato de esse ser um assunto que requer muito conhecimento estrutural, informação “de dentro” e não tem como ser ensinado através de materiais pedagógicos largametne disponíveis, já que as instituições de mídia existem, mas não há como tocá-las, comos e faz com um filme ou um pôster, por exemplo. Já o uso de novas mídias requer dedicação e tempo hábil para acompanhar mudanças tão itensas e constantes, algo difícil de ser realizado para quem tem o dia cheio com aulas.

Os professores também listaram prioridades que deveriam ser tratadas pelos gestores:

– necessidade de prover recursos tecnológicos apropriados, principalmente para o trabalho de produção;

– encontrar um meio de manter os professores atualizados sobre as mais recentes mudanças tecnológicas;

– criar referenciais mais precisos para avaliar as diversas facetas da aprendizagem sobre mídia como, por exemplo, habilidades técnicas, resultados dos trabalhos de produção, auto-avaliação;

Para um leitor brasileiro, são questões próprias de quem já é experiente nesse campo do conhecimento, uma situação bem diferente da dos nossos professores do Ensino Médio. Entretanto, o panorama apresentado no relatório ajudar a construir alguns discernimentos importantes para a formação de professores no Brasil:

– Os programas de estudos deveriam se preocupar em tratar os textos midiáticos como artefatos culturais, fruto de disputas simbólicas. Assim, clarificariam discussões sobre a legitimidade de se estudar o Cinema Novo ao invés de tratar criticamente do funk. Do ponto de vista da mídia-educação, as mensagens veiculam identidades em disputa no cenário midiático e é o conhecimento dessas disputas que desenvolve a percepção crític. Caso contrário, nossos professores podem repetir o comportamento inglês de preferir os cânones da cultura ao invés de dialogar com o repertório real dos alunos;

– Investir em tecnologia de ponta é fazer das escolas portais e não barreiras para a cultura digital. Equipamentos eletrônicos ficam obsoletos rapidamente, quebram com o uso, nem sempre funcionam, mas o investimento maciço em equipamentos, assim como no suporte técnico para o professor são dosi quesitos básicos para se ter sucesso em qualquer proposta de mídia-educação;

– Se já dá trabalho ensinar conteúdos há muito estabelecidos no currículo com qualidade, imagine ensinar um conhecimento emergente. Com a carga horária que os professores brasileiros normalmente tem, nunca vão conseguir trabalhar na proposta da mídia-educação. Entretanto, estamos falando de um meta-conhecimento fundamental para se prosperar culturalmente (e consequente economicamente) no século XXI. A mídia-educação só poderá florescer num contexto em que os professores puderem dedicar uma parte da sua carga horária semanal ao estudo – sendo pagos para isso, obviamente.

O futuro a Deus pertence e pode ser melhor que o presente. Tomara.

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Mídia-educação aqui e lá

Media matters – A review of media studies in schools and colleges” (“Questões sobre a mídia – uma revisão dos estudos de mídia em escolas e faculdades”) é um relatório produzido pelo English and Media Centre, com recursos do Department for Education and Skills (hoje só Department for Education), que foi publicado pela primeira vez em 2005.

O documento descreveu o estado da arte da mídia-educação inglesa, abordando 4 aspectos: o contexto cultural e educativo que promove a educação para a mídia; a presença desse conhecimento nos curriculos primário, secundário, nos chamados cursos vocacionais e na educação não-formal; a formação de professores e os recursos disponíveis para quem se propõe a ensinar o assunto.

Alguns aspectos são inimagináveis para a realidade brasileira mas, em diversos outros, a leitura do relatório mostra preocupações e dificuldades comuns. Trata-se, portanto, de uma fonte de informação relevante para pesquisadores brasileiros.

No sistema educacional inglês são ofertados os chamados cursos AS e A2 Levels, voltados a estudantes do ensino secundário que se preparam para cursar a faculdade. Os programas de estudos contemplam áreas como Economia, Química, Arte e Design, Geologia, Línguas Estrangeiras, Física, Serviços Públicos de Saúde e também Estudos de Mídia. Há uma enorme diversidade de cursos. Ao concluí-los, os estudantes se submetem a um exame realizado por uma organização credenciada pelo governo e obtêm o chamado GCSE (General Certificate of Secondary Education, ou Certificado Geral de Educação Secundária).

O relatório do EMC mosta que o GCSE de Media Studies é um dos que mais crescem em preferência pelos estudantes, assim como cresce a procura pelos chamdos cursos vocacionais em mídia. De um modo geral, o programa de estudos dos A Level enfatiza aspectos teóricos e analíticos da mídia, enquanto os cursos vocacionais têm um perfil mais técnico e prático. De fato, não temos nada parecido com os A Level, embora algumas experiências vocacionais já existam há um bom tempo como, por exemplo, os cursos oferecidos pelo Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial).

Para além desses programas específicos que só existem por aqui, a media education também está presente no currículo da escola básica, em especial nos Key Stages 3 e 4, que equivalem aos anos de formação do nosso Ensino Médio. De um modo geral, os referenciais curriculares pedem que o estudo da mídia nessa fase tenha como objetivos:

1. Mostrar como o significado é veiculado em textos que incluem a linguagem verbal, as imagens e o som;

2. Compreender como as escolhas feitas em termos de layout, apresentação e forma contribuem para criar um determinad efeito;

3. Em que medida a natureza e o propósito de uma mensagem midiática influenciam no processo de produção do conteúdo e seu significado;

4. De que modo as audiências escolhem e respondem aos produtos midiáticos.

Esses conteúdos são normalmente tratados na disciplina de Inglês, e o relatório descreve as habilidades que são normalmente esperadas dos concluintes:

1. Ler com perspicácia e engajamento, fazendo referências apropriadas aos textos [midiáticos] e desenvolver uma interpretação deles;

2. Saber distinguir fato de opinião e avaliar como cada um desses aspectos é avaliado;

3. rastrear um argumento, identificar suas implicações e reconhecer suas inconsistências;

4. Saber selecionar e coletar material apropriado de diferentes fontes e saber cruzar  e comparar esses dados;

5. Compreender e avaliar o modo como escritores usam a língua, os recursos estruturais e de apresentação para alcançar seus objetivos, comentando os modos como a linguagem usada muda.

As questões para a avaliação são feitas pelos chamados “awarding boards” e variam de organização para organização. O relatório traz alguns exemplos, entre eles a avaliação feita pela OCR (Oxford Cambridge and RSA Examinations), que apresenta um texto midiátio inédito e pede ao aluno para escrever um ensaio discutindo questões como a distinção entre fato e opinião, selecionando e cruzando informações de outros textos, evidenciando inconsistências do texto analisado.

Obviamente, esse sistema de avaliação fomenta um mercado editorial específico para os estudos de mídia. Há uma diversidade de websites, livros didáticos e outros materias multimídia específicos para o GCSE e para os A Level.

Esses são alguns exemplos:

Doing ads – Approaches for the 21st Century (Produzindo Anúncios –  Abordagens para o Século 21)

Editado pelo English and Media Centre, esse material inclui um DVD com reproduções de anúncios da Coca-Cola, da Levi’s e folhas de exercícios fotocopiáveis com atividades para os alunos aprenderem a analisar a linguagem e construir mensagens semelhantes.

 

 

 

 

 

 

 

Estudando “Cidade de Deus”

Surpresa! Um filme brasileiro virou objeto de estudos na Inglaterra. O Film Education disponibiliza um material pedagógico para professores que queiram estudar esse filme, analisando a linguagem, as representações e as respostas da audiência.

As dificuldades relatadas pelos professores também soam familiares: na maioria das vezes não há recursos tecnológicos adequados, a formação não contemplou esse conhecimento, é difícil se manter atualizado numa área que muda tanto.

No Brasil como na Inglaterra, a mídia-educação lembra aquele poema do Carlos Frummond de Andrade, “Balada do amor através das idades”. Realmente trata-se de um caso de amor que alguns educadores desenvolvem com a cultura midiática, cujo romance não conseguem concretizar por causa das dificuldades institucionais. Mas vamos tentando mesmo assim.

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PAUSA NAS AULAS PARA REFRESCAR AS IDEIAS NA INGLATERRA

Grande horizonte à vista: oito semanas na Inglaterra para conhecer melhor o cotidiano das aulas de mídia-educação

De de novembro a 21 de janeiro, estou trabalhando como pesquisadora visitante no London Knowledge Lab do Instituto de Educação da Universidade de Londres.

Há cinco anos eu realizei um pós-doutorado na Open University, onde estudei a então recentemente aprovada política de media literacy, que foi criada com a aprovação do novo Communications Act inglês. Meu objetivo naquele estudo era compreender como foi desenhada e vinha sendo implementada a polícia nacional de media literacy. Uma parte deste estudo foi publicada no artigo “Educação para a mídia como política pública: experiência inglesa e proposta brasileira”, na revista Comunicação e Política do Centro Brasileiro de Estudos Latino-americanos.

De lá para cá, muita coisa aconteceu na Inglaterra e algumas coisinhas aconteceram no Brasil. A segunda gestão do governo Lula tentou discutir a questão da regulação da radiodifusão, promovendo a Confecom em 2009,  e a UNESCO produziu um estudo comparativo entre a regulação da radiodifusão de 10 democracias e o Brasil, em 2010. Em ambos os casos, a questão da educação para a mídia (ou media literacy) está registrada como uma ação importante para promover o acesso e a participação democrática nos serviços de comunicação.

Desde 2009, sou responsável pela disciplina “Comunicação, Educação e Tecnologia” oferecida aos cursos de licenciaturas e Serviço Social da UFTM, que, neste semestre, começou a ser registrada neste blog. Também estou coordenando dois projetos: o Laboratório de Mídia-educação da UFTM, financiado com recursos do CNPq e um projeto de extensão chamado REDECI – Engajando Jovens através da mídia-educação, voltado a alunos do ensino médio de escolas públicas de Uberaba, financiado com recursos do programa “Novos Talentos” da Capes.

Todas essas iniciativas de ensino, pesquisa e extensão são desdobramentos daquilo que eu aprendi entre 2006 e 2007, quando fiz o pós-doutorado. Voltei para o Brasil com o ideal de media literacy desenhado na cabeça e tentei colocar em prática o que eu tinha aprendido. Algumas coisas deram extremamente certo como, por exemplo, usar os chamados conceitos-chave da mídia educação para organizar um curso. Outras estão sendo mais difíceis de realizar como, por exemplo aplicar a teoria dos estudos culturais para analisar criticamente os textos midiáticos. De um modo geral, os alunos vêm para a universidade condicionados em busca da resposta certa. Quando o certo reside na capacidade de argumentar com base em evidências, a maioria não consegue e não consegue sequer entender a proposta (essa questão é desenvolvida no post sobre a avaliação, que eu ainda não publiquei mais publico em breve).

Depois de cinco anos, decidi dar um jeito de voltar à terra da media literacy e investigar mais profundamente as metolodogias de ensino, os esquemas de aula, os materiais e os critérios de avaliação usados pelos professores do ensino médio e universitário. Os resultados dessa investigação serão registrados aqui, nas próximas sete semanas.

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